As seis frentes complementares ao trabalho em um pronto-socorro espiritual.
- Raul César

- 19 de jan.
- 54 min de leitura
Atualizado: 20 de jan.
Da série inicial de vinte e um artigos:
- Texto 21 -
O acolhimento nos prontos-socorros espirituais
A benevolência para com os seus semelhantes, fruto do amor ao próximo, produz a afabilidade e a doçura, que lhe são as formas de manifestar-se.[*]
Lázaro

Caro amigo leitor, é com o coração aquecido pela jornada percorrida que anunciamos estarmos chegando ao final desta série inicial de 21 capítulos intitulada 'A Casa dos Espíritos: uma história de reconstrução de um templo da Luz'. Ao longo destas páginas, revisitamos memórias, fundamentos e um pouco do nosso caminhar ao longo de nove anos de trabalho em um Templo Espírita. Contudo, antes de encerrarmos este ciclo inicial de artigos, dedicaremos este espaço para detalhar os seis itens complementares que julgamos indispensáveis ao pleno desenvolvimento da prática em um pronto-socorro espiritual. Consideramos os itens seguintes também como pilares que sustentam a estrutura vibracional da casa e favorecem a chegada do auxílio espiritual a quem bate à nossa porta. Iniciamos agora, portanto, o mergulho na segunda dessas bases: o acolhimento.
Fator indispensável aos Templos da Luz, o acolhimento é o gesto contínuo mantenedor da harmonia e do bem-estar entre os espíritos. Encarnados e desencarnados sentem-se contentes quando são bem recebidos em um lugar. A expressão do amor é uma forma sublime de demonstrar Jesus em nossas almas, a cada dia e a cada hora. Conhecimento atemporal, o acolhimento é uma base fundamental para fazer um agrupamento conseguir avançar em seus propósitos mais sublimes.
Aqui deve ficar claro que acolher tem a ver com um conjunto de práticas que se dão em diferentes níveis e frentes de atuação, além de ser manifestada em diferentes dimensões do ser, afinal, é uma das frentes mais importantes num lugar onde se trabalhe com pessoas. Para avançarmos nesse princípio, devemos lembrar que existe, antes de qualquer coisa, um modelo primordial para exercer essa virtude: Jesus, o Senhor da Luz, foi o maior exemplo de acolhimento de que temos conhecimento.
Na obra Jesus no lar, psicografada por Chico Xavier e ditada pelo benfeitor Neio Lúcio, é narrado um momento de diálogo entre João Evangelista, o discípulo amado, com o Mestre. Na ocasião, o apóstolo questiona a ele qual a maior de todas as lições para os aprendizes da revelação, quando se coloquem diante de seus irmãos para ajudá-los, ao que ele dita:
[...] não te esqueças de amar o companheiro de jornada terrestre, tanto quanto desejas ser querido e amparado por ele. A pretexto de cultivar a verdade, não transformes a própria existência numa batalha em que teus pés atravessem o mundo, qual furioso combatente no deserto; recorda que a maioria dos enfermos conhece, de algum modo, a moléstia que lhes é própria, reclamando amizade e entendimento, acima da medicação. Lembra-te de que não há corações na Terra, sem problemas difíceis a resolver; em razão disso, aprende a cortesia fraternal para com todos. Acolhe o irmão do caminho, não somente com a saudação recomendada pelos imperativos da polidez, mas também com o calor do teu sincero propósito de servir. Fixa nos olhos as pessoas que te dirigirem a palavra, testemunhando-lhes carinhoso interesse, e guarda sempre a posição de ouvinte delicado e atencioso; (Xavier, 2004, p. 132).
Se tornar acolhedor é uma arte da Luz. É não somente receber as pessoas que chegam, entregando-lhes fichas e dando-lhes orientações, mas é fazer tudo isto sendo atencioso, cortês, amigo, e buscando ver a presença do Senhor na pessoa que acaba de chegar. Neste pequeno trecho citado não foram elencados todos os pontos que o Mestre Nazareno explicou para João, mas aqui já temos um bom começo para desenvolvermos essa virtude no coração. A intenção de ajudar sempre vem antes da ajuda em si, ela surge como um estímulo abençoado para oxigenar o próprio espírito diante do outro, que é sempre essa expressão de Deus entre nós. E não é exagero que digamos assim, afinal, o próprio mestre asseverou que todos nós somos deuses[**], somos dotados com grandes potenciais de cocriação da realidade, podendo formar beneficamente todas as coisas ao nosso redor.
Para que possamos melhor entender a extensão desses gestos, é bom lembrarmos que todas as pessoas que chegam até nós, sempre são as pessoas certas, como dizia um antigo provérbio hindu, isto é, na vida, não há um encontro sequer que seja casual, mas sim causal, porque todos os que encontramos vem ou vão por alguma razão, o que variará será o grau da necessidade de convivência, que já é outro aspecto da Lei de Causa e Efeito. Por menor tempo que seja, todas as pessoas que se aproximam, nos ensinam algo e aprendem alguma coisa conosco também. Um olhar atento fará com que se perceba isso com mais naturalidade, sem pressão ou cobranças, mas observando que a Lei Natural é sempre educativa. Considerando isto, colocamos a seguinte questão para quem já desenvolve ou quem deseja realizar essa tarefa: o que o outro pode aprender com a postura que o recebo? Quais impressões ficarão marcadas em seu espírito? É justo ainda colocarmos esses pontos livres do julgamento comum. Há pessoas que, por falta de maturidade espiritual, mesmo diante de um acolhimento genuíno, não saberiam reconhecer logo de imediato o princípio do acolhimento, recaindo em melindres ou indiferenças de todo o tipo. Isso, longe de diminuir o aprendizado pela experiência difícil, torna o aprendizado ainda mais pertinente, pois este movimento revelaria ainda mais apuradamente que existe um fator maturacional e temporal para o pleno desenvolvimento dessa forma de caridade, tanto para quem o pratica quanto para quem recebe. Chegará um momento - para não dizermos já abertamente que chegou o tempo - onde as pessoas serão convidadas, ou constrangidas, a praticarem-no no dia a dia, com todos. Alguns despertarão com mais facilidade para este pensamento, tendo em conta as suas experiências de outras vidas, seus compromissos assumidos no mundo espiritual e a sua própria maturidade espiritual, além do conjunto das virtudes aliadas que já guardam em seus corações, outros, porém, ainda terão muita dificuldade em abraçar, em sorrir e em sentir o outro na sua identidade de filho de Deus.
O acolhimento é o gesto de olhar para uma outra pessoa não pelo que ela apresenta em seu aspecto físico, porque isso facilmente enganaria a muitos, mas em conteúdo energético-espiritual e, assim, ter a sensibilidade de orientá-la e encaminhá-la da melhor maneira possível. O acolhimento, portanto, é um exercício de supressão dos exageros, é uma a força vital do bem que sempre atua com simplicidade, gentileza e afabilidade.
Um outro ponto essencial na compreensão do acolher é que ele não se aplica a ninguém em específico, não está ligado às pessoas em si, isto é, as personalidades humanas que temos contato no cotidiano, assim como não está relacionado aos espaços também. Lugar específico nenhum é para se praticar o acolhimento, porque, na verdade, é para ser exercido em todos os lugares e com todas as pessoas e em qualquer tempo, ou seja, é receber gentilmente sem barreiras, sem protocolos ou preferências, os espíritos que estão diante de nós, ou, para tentarmos nos aproximar ainda mais do ensinamento: é amar ao próximo. A pessoa mais importante sempre será aquela que está diante de nosso olhar, independente da bagagem que carregue.
O acolhimento está na ordem do gesto, do pensamento e do coração.
Tomemos um exemplo de acolhimento que foi realizado pelo Senhor da Luz. Está narrado no livro Boa Nova, autoria espiritual de Humberto de Campos através da mediunidade santa do Chico. Maria de Magdala, que guardava no coração o mais sincero anseio pela Luz, foi ter com o Mestre uma conversa, mesmo que a custa de muitas ofensas e acusações que ouvia dos homens que estavam no mesmo espaço. É dito que ela, imersa em pensamentos de renovação,
“penetrou o umbral da humilde residência de Simão Pedro, onde Jesus parecia esperá-la, tal a bondade com que a recebeu num grande sorriso. A recém-chegada sentou-se com indefinível emoção a estrangular-lhe o peito.” (Xavier, 1997, p. 103).
Ali, pelo simples fato de ter sido acolhida por ele, nascia um dos maiores projetos de renovação de alma que se tem notícia. Considerada por muitos a maior entre todos os discípulos dele, seguiu, completamente transformada, tornando-se a guardiã de registros importantes da história.
Assim pode acontecer a qualquer um de nós. Meditemos naqueles que estão próximos e na história que já possam trazer em suas almas, assim ficará mais simples acolher e amparar. Amor a todas as pessoas, esse é o caminho. Não basta escolher aqueles a quem não conhecemos e querermos ajudar – já que aos que conhecemos há muito tempo, isto é tarefa fundamental -, como foi dito anteriormente, é necessário não observar nenhuma diferença ou barreira, nenhum detalhe é tão importante quanto receber bem o outro, que é sempre uma visita divina a nos concitar a alegria ou a reflexão de nossos atos.
O acolhimento diz respeito também a uma espécie de sintonia espiritual, um estado vibracional. Tudo na aura da pessoa que já se tornou acolhedora exala um magnetismo de atração e admiração, que sempre são calibrados pela humildade, carinho, boa-vontade e simplicidade, mais do que necessários para o alcance da verdadeira caridade.
Essa tarefa, portanto, quando bem desenvolvida, não se encerra na porta de entrada; ela reverbera positivamente em cada setor do templo, funcionando como uma 'limpeza prévia' que prepara o assistido para os socorros subsequentes. É como se o sorriso inicial abrisse as comportas da alma para receber as águas curativas do mundo espiritual. Assim, cada parte de um templo deve vibrar nessa sintonia da mansuetude. Além do que, alguns setores em específico guardam uma necessidade ainda maior desse cuidado minucioso com a dor alheia, onde o acolhimento deixa de ser apenas uma saudação e passa a ser um mergulho no universo do outro. É o caso do Atendimento Fraterno, para o qual agora dirigiremos nosso olhar, compreendendo como um simples diálogo pode se tornar uma virada de chave para a remediar as aflições.
O atendimento fraterno
Que seja a sua presença na Casa Espírita uma viagem permanente ao coração de seu irmão.[1]
Joanna de Angelis.

Também denominado de diálogo fraterno, essa é uma frente preciosa de trabalho nos laboratórios de serviço do Cristo. Trata-se de um espaço de interação importante para o processo do acolher e do servir. Nesse sentido, a benfeitora espiritual Joanna de Angelis nos explica que esse tipo de atendimento, onde um paciente senta-se diante de um trabalhador do centro para conversar sobre temas que são desafiadores para si, desabafando alguma situação, tem
“como objetivo primacial receber bem e orientar com segurança todos aqueles que o buscam. ” (Pereira Franco et al, 2017, p. 10),
Quer dizer, esse é um trabalho que tem como elemento central o receber - sem constrangimento - as pessoas, com quaisquer que sejam os traços de personalidade que tenham, abrindo o campo dialógico a partir da simplicidade do ouvir. Esse é um ato de relevar a luz de Deus pelas expressões dos ouvidos atentos e dispostos a não interferir nos relatos que são expostos pelos consulentes. Sentados, de frente um ao outro, aquele que tem o papel de amparar deve estar munido de um senso claro de não julgamento ao outro, de não interferir nas experiências ou no desabafo do irmão, mas em lhe oferecer um campo favorável ao esvaziamento de suas dores, sempre sem conivências.
Uma questão segura que a benfeitora ainda coloca como indispensável é que se deve ter a clareza de que este trabalho não se propõe a promoção de milagres, curas repentinas, promessas, ou outro perfil confessional de atividade, mas como uma forma de propor caminhos para a pessoa, como uma autoterapia dialogada. Ou, diretamente nas palavras da autora espiritual:
Mediante conversação agradável, evitando-se atitudes de confessionário, o atendente fraternal deve saber desviar os temas que incidem nos vícios da queixa, da lamentação, da autopunição, demonstrando que o momento de libertação e paz está chegando, mas a ação para o êxito depende do próprio paciente, que deve iniciar, a partir desse momento, o processo de autoterapia. (Pereira Franco et al, 2017, p. 10).
É bom que o voluntário que assuma essa tarefa no centro seja alguém com uma boa predisposição para ouvir, que já possua algum entendimento sobre os princípios evangélicos e, se possível, já tenha tido acesso a alguma forma de terapia, seja por pesquisa, por formação acadêmica ou por experiência em ser atendido por algum profissional da área terapêutica, para que se tenha um modelo de orientação a seguir, mas isso não é uma regra, afinal, existem pessoas sem nenhuma experiência acadêmica ou profissional com o assunto que conseguem ouvir e ajudar muito bem. A polidez e a discrição são fundamentais para o bom desenvolvimento das atividades.
O que é desabafado na sala de atendimento fraterno lá deve ficar não sendo ouvida senão pelo atendente e pelos amigos espirituais. Como se trata de um processo de aconselhamento entre irmãos, sempre devemos considerar que a inspiração dos bons espíritos acontece de forma natural nesses momentos, mas sem necessidade de manifestação mediúnica ostensiva, mantendo-se a sintonia com os desencarnados de forma sutil ou intuitiva somente.
O voluntário não dever temer a ação dos espíritos obsessores nesse trabalho, porque os bons amigos espirituais logo operam a modificação
“psíquica dos pacientes, afastando as Entidades malévolas que os irão aguardar à saída dessas defesas magnéticas. ” (Pereira Franco et al, 2017, p. 20)
Movimento esse que acontece somente quando a pessoa, uma vez fora do ambiente da casa, dê brecha para os maus pensamentos, e não na sala, durante a terapia dialogada.
Esse tempo da conversa é um processo educativo, e assim como a própria etimologia da palavra educar, em sua origem latina, edulcere, significa retirar de dentro, do mesmo modo deve fazer o atendente, criando as condições para que o outro traga à tona a própria solução do problema, consiga trazer para fora a solução buscada. O papel daquele que atende é também o de esclarecer quanto as consequências das atitudes, explicar-lhes sobre a lei de Causa e Efeito, sobre o amor profundo que o Mestre deposita nos corações, incentivando a sair da sintonia desequilibrada em que porventura esteja. Para reiterar as orientações cirúrgicas da benfeitora junto às reflexões dos irmãos encarnados, tomemos a seguinte afirmativa:
Seja qual for, portanto, o tipo de desvio do comportamento sexual, moral, ético, espiritual, que nos seja apresentado, a nossa atitude é terapêutica, sem conivência, repito, sem anuência, sem reproche, porque o indivíduo tem o direito de fazer da sua vida o que lhe aprouver, mas temos o dever de mostrar-lhe o caminho correto que deve seguir. (Pereira Franco, 2017, p. 25)
É um processo de libertação gradual, um atendimento de amor fraterno, de solidariedade, não é um processo clínico, formal, protocolar, mas também não é local para tagarelice, conversa desmedida ou ofensa. A fala integral da pessoa que chega para desabafar é sempre um ponto de convergência para o bem. Desintoxicar a fala do outro é um esvaziamento desse conteúdo pelo falar. Ouvir e incentivar a pessoa no caminho do bem é sempre uma boa escolha.
O outro é sempre importante.
Tudo deve fluir de forma simples e bem orientada, de maneira que o momento possa se tornar inspirador. Mesmo que as histórias contadas sejam delicadas ou que pareçam absurdas, tudo deve ser encarado com uma postura de compreender a posição do outro, sem deixar de esclarecê-lo quanto à como possa melhorar tal ou qual situação. O atendente, sustentado pela prece e pela intuição, torna-se o elo entre a dor da Terra e o amparo do Céu, oferecendo o consolo que estanca o desespero imediato. No entanto, é comum que, por trás das narrativas de sofrimento e dos desajustes emocionais, revelem-se tramas complexas de intercâmbio espiritual infeliz. Quando o diálogo fraterno identifica que a raiz das aflições transcende o campo anímico e mergulha nas simbioses mentais persistentes, se torna necessário o recurso de terapias espirituais específicas. É nesse contexto que o acolhimento se desdobra em socorro especializado, conduzindo-nos ao estudo e à prática da desobsessão, onde o amor cristão alcança não apenas o encarnado, mas também as consciências que o acompanham nas sombras do caminho.
Desobsessão
Nada há de mais sério em um centro espírita que o trabalho de desobsessão.[2]
Luiz Gonzaga Pinheiro

Primeiramente, para se tratar dessa questão, nada mais justo do que nos referirmos ao conceito de desobsessão, compreendendo-o de forma simples e direta. Podemos compreendê-lo a partir da definição oferecida pela escritora e palestrante Suely Caldas Schubert, quando aponta esse tipo de tratamento de forma dupla, separando-o em aspectos fundamentais, considerando um ponto mais abrangente e outro de modo mais específico:
“Desobsessão, em sentido amplo, é o processo de regeneração da Humanidade. É o ser humano desvinculando-se do passado sombrio e vencendo a si mesmo. Em sentido restrito, é o tratamento das obsessões, orientado pela Doutrina Espírita. ” (Schubert, 2008, p. 85)
Isto é, pelas consequências naturais do sentido restrito, temos um desenvolvimento da própria consciência espiritual, da restauração da alma para Deus, para um direcionamento luminoso do caminho, ajudando na superação das dores, na recuperação dos vícios, no alinhamento do espírito ao sagrado que nele habita, mesmo que não o perceba logo de imediato. É uma forma de ajudar, uma profilaxia, um tipo de tratamento que auxilia sobremaneira, tanto encarnados quanto desencarnados. Podemos compreender, por decorrência natural da primeira parte da assertiva da pesquisadora, que quando alguém se cura - por qualquer caminho espiritual que seja - contempla uma desobsessão completa, regenera-se.
Toda prática de cuidado com o próximo detém bases que são as forjas de onde a manifestação retira seu contorno, bafejando os elementos que lhe deram origem incessantemente. De acordo com o escritor e pesquisador Luiz Gonzaga Pinheiro, com a desobsessão acontece isso, pois
“as bases da desobsessão estão inscritas nos códigos morais deixados por Jesus: Amar ao próximo como a si mesmo, perdoar as ofensas, ser manso e humilde de coração sem, contudo, dispensar a prudência. (Pinheiro, 2007, p. 71).
Toda ciência e arte de cuidar do próximo, em algum nível, irá encontrar sua matriz nos ensinamentos de Jesus, o mestre por excelência. Cada encaminhamento de energias astrais, cada diálogo com obsessor, cada orientação, tudo deve lembrar Jesus, com o seu amor inefável. De maneira simplificada, podemos dizer que a desobsessão parte de um sistema trino de tratamentos, os quais se iniciam com procedimento mais direcionado para o vínculo do obsessor com o obsidiado, que é o passe desobsessivo, ocasião da verificação da existência desse vínculo e início do desprendimento energético-emocional; a segunda etapa com o passe simples – aproximação e limpeza das energias do encarnado, momento onde geralmente são afrouxadas as formas astrais de obstáculo que a pessoa enfrenta, além da harmonização dos chacras; e por fim, para os que precisarem, a sala de tratamentos espirituais é indicada, que é um local onde, deitando-se sobre uma maca, são energizadas as regiões onde tenham ficado alguns resquícios de energias adoentadas que podem repercutir nos outros corpos espirituais do paciente. Cada uma dessas etapas terá uma função maior ou menor para os consulentes e todas elas ajudam a sustentar o tratamento desobsessivo. Alguns precisarão somente da primeira etapa, outros precisarão de duas, outros tantos, das três e repetidas vezes. O quantitativo de vezes em que uma pessoa precisará dessa terapêutica deverá ser orientado ou intuído pela espiritualidade. Nesse sentido, sem nos apegarmos aos processos práticos de como cada uma dessas etapas acontecem nesse tipo de tratamento – discussão e aprofundamentos genuinamente feitos pelo espírito André Luiz em sua obra “ Desobsessão” (2023) – passemos a um entendimento das questões filosoficamente indispensáveis para entender essa prática. A primeira questão, para retomar o que foi dito anteriormente, é que, se todo processo obsessivo é, necessariamente, um adoecimento da alma, logo, todo processo de desobsessão é sempre um despertar para uma cura.
Para que isso ocorra com tranquilidade e sem muitas inquietações, as atitudes dos médiuns trabalhadores devem estar em sintonia com o bem mais puro possível. Afinal, quando alguém que não é conhecedor do evangelho inicia um tratamento dessa natureza, é porque está precisando de medicamento para a alma e não mais inquietações ou perturbações que lhes aumentem a fragilidade. Tomemos o exemplo de uma pessoa que teve um desencarne prematuro de um familiar e resolveu procurar ajuda em um centro espírita porque estivesse sentindo alguma perturbação. Mesmo que ela tenha algum conhecimento sobre a espiritualidade, ainda assim estará se sentindo abatida e, portanto, precisando de um acolhimento para que consiga sair da frequência da tristeza. Imaginemos que, ao achegar na sala, é recebida com “informações do astral” de que está pagando por um mal muito sério de outra vida, que a pessoa “tem que entender que a vida é eterna” e parar de “ser materialista” ou de que “vai piorar porque você está se entregando a essa dor”. Essas assertivas todas, apesar de guardarem uma nobre verdade em sua em essência, quando ditas assim, secamente, é como se fosse um lindo presente embrulhado em um péssimo papel, e, ao em vez de ser entregue com carinho e consideração, é lançado ao peito de seu recebedor.
Desobsessão é leveza, é discernimento e humildade, é entender o outro. E, ao mesmo tempo, ter a clareza a respeito do temperamento de quem chega. A abordagem já seria outra no caso de um irmão que chegasse à casa com a única intenção de atrapalhar o trabalho ou enganar alguém, porque daí, de forma simples, poderiam lhe ser oferecidas orientações mais assertivas a respeito da disciplina dentro e fora do templo. A questão é se entender que, para uma boa realização do trabalho desobsessivo, é necessário ter um conhecimento intuitivo forte para perceber o temperamento e atmosfera ao redor de cada irmão, para assim se ter uma abordagem mais precisa e dinâmica sobre a ocorrência.
A postura e as atitudes dos irmãos encarnados são uma questão central nessa frente de trabalho, pois se não há um respeito profundo pela espiritualidade durante os procedimentos, - onde aquele que deveria asserenar o consulente, ao invés disso, salta, pula, realiza grandes firulas, grita - então estamos diante de um quadro onde o passista está também necessitando de tratamento. Cada abordagem, cada caso, é sempre desafiador. Quando um médium se aproxima da carga fluídica de alguém em grande perturbação para ajudar no encaminhamento das energias, algumas fortes impressões o assaltam, de maneira que impulsos nervosos de naturezas variadas podem ser sentidos no corpo inteiro, no entanto, todos eles podem ser minimizados, acalmados e reorientados pela energia equilibrada dos benfeitores, os quais estão sempre próximos. O irmão André Luiz diz que não devemos dizer que essa sensação que sobrevém seja irresistível, afinal a
Desobsessão é obra de reequilíbrio, refazimento, nunca de agitação e teatralidade. Nesse sentido, vale recordar que há médium de incorporação normal e médium de incorporação ainda obsidiado. E sempre que o médium, dessa ou daquela espécie, se mostre obsidiado, necessita de socorro espiritual, através de esclarecimento, emparelhando-se com as entidades perturbadas carecentes de auxílio. (Xavier; Vieira, 2023, p. 43)
A cooperação silenciosa e serena, nestes casos, é sempre bem-vinda. O cuidado, o amparo, a prece, são recursos importantes que não devem ser deixados para outro momento. Todas as vozes precisam ser ouvidas, tudo precisa ser feito com muito amor. Os passistas encarnados são como enfermeiros a ajudarem um paciente em desespero, tentam acalmar, medicar, orientar, nunca entrar na mesma frequência, perder o autocontrole ou desdenhar das situações. Toda casa que trabalha com desobsessão é, por isso mesmo, um hospital. Esse é o aspecto do cuidado direto, aquele voltado ao instante do socorro, da dor, onde se aplica o lenitivo diretamente.
Há ainda outro quesito, tão importante quanto, que é a questão da postura do trabalhador com relação ao conhecimento da desobsessão e de outros temas voltados a espiritualidade sem circunscrições ou barreiras. A experiência nessa área, por si, é um grande aliado nessa integração, mas não é suficiente para responder a todos os desafios que essa tarefa apresenta. Sempre há novas coisas a se aprender que estão fora do que já se sabe ou se viu. Ler bons livros, ouvir relatos de experiências de outros irmãos, participar de grupos de pesquisa sobre o tema, se interessar por uma rotina de estudos, são atitudes que elevam o grau de compreensão espiritual largamente. Do mesmo modo para com os irmãos que começaram ou seguem seus percursos somente pela via da teoria, dos aprofundamentos oferecidos por autores veneráveis. Se não houver um entrelaçamento dessas pesquisas com o exercício cotidiano da desobsessão, ainda faltará muito para se completar o ciclo de um conhecimento elaborado sobre o tema. Toda ação no bem é sempre cultivada, alimentada constantemente por pequenas práticas e estudos. Reiterando essas reflexões, lemos nas palavras de André Luiz:
É forçoso que os seareiros da desobsessão não se circunscrevam, em matéria de atividade espírita, aos assuntos do grupo. [...] Aprender sempre e saber mais é o lema de todo espírita que se consagra aos elevados princípios que abraça. E na faina da desobsessão é preciso entesouremos conhecimento e experiência, para que os instrutores Espirituais nos encontrem maleáveis e proveitosos na extensão do bem que nos propomos cultivar e desenvolver. (Xavier; Vieira, 2023, p. 71).
Qualquer impedimento em se ultrapassar as bordas do conhecimento que já se tem, dentro da desobsessão é, precisamente, um obstáculo que permitimos que esteja a nossa frente - isso quando não o colocamos lá e o reforçamos por nós mesmos. Abrir o coração e a razão às diferentes formas de se abordar esse delicado tema é uma maneira feliz de encontrarmos soluções para cada caso que se apresente. Afinal, trabalhar com desobsessão é um caminho contínuo de desenvolvimento da humildade, de ter uma emoção despertada ao coração por ver a um irmão ou irmã, que, por vezes, a tanto tempo esteja aprisionado na dor da mágoa ou da revolta, se libertar ao dizer que perdoa, que entende, que agradece o resgate feito.
Exercer essa arte é como lembrar que o amor divino está sempre presente, cuidando e direcionando todos ao caminho da Luz, pela virtude e pela sabedoria. Contudo, se a desobsessão atua como um socorro bendito que estanca as feridas abertas por séculos de equívocos, uma profilaxia ainda mais profunda para a alma reside na educação preventiva do espírito. Compreendemos, assim, que o trabalho de desobsessão cura o ontem, mas é na base da infância que construímos o amanhã. Para que as futuras gerações não mais se percam nos labirintos da obsessão e encontrem, desde cedo, a bússola do Cristo, o pronto-socorro deve dedicar um olhar de ternura e de orientação pedagógica àqueles que são o solo mais fértil da humanidade: as crianças. Passemos, então, a refletir sobre a importância vital da Evangelização Infantil.
Evangelização Infantil
Toda aplicação de amor, no campo da educação evangélica, visando a alma em trânsito pela infância corporal, é valiosa semeadura de luz que se multiplicará em resultados de mil por um. [3]
Bezerra de Menezes.

Quando nos referimos ao processo de evangelizar, isto é, de levar uma mensagem, uma orientação a respeito do ensinamento do Mestre, não há outro ponto relevante senão o da prática, isto é, de atividades e temas que estimulem a experiência. Dentro dessa fase que o espírito está - a infância - eles estão imersos em uma dinâmica muito intensa na produção de substâncias químicas que desenvolvem os diferentes corpos que possuem (Steiner, 2012). O corpo anímico, etéreo, mental, emocional e todas as outras múltiplas camadas até o corpo físico estão aprimorando e adaptando as suas propriedades. Os sentidos, no corpo infantil, são potencializados. As crianças são quase que puramente sensações, devido ainda a sua forte ligação com o mundo espiritual antes de encarnar. Todos os eventos que acontecem na vida da criança são percebidos de forma muito intensa, (Steiner, 2012) daí onde surgem as boas memórias afetivas com lugares, cheiros, experiências, e, do mesmo modo, com os traumas, que, por vezes, duram uma encarnação inteira.
Por esta razão, tudo, para a criança, deve ser pensado para lhe fazer compreender a realidade do mundo espiritual e as nobres verdades que o acompanham. Todas as Leis Morais, como repousam sobre as regularidades da natureza, devem ser explicadas, mas sobretudo experiênciadas de muitas formas. Mostrar para a criança as consequências da vaidade ou do orgulho através da contação de histórias – como fábulas, por exemplo – podem ser excelentes práticas para ativar suas lembranças de outras vidas de forma inconsciente. Cada etapa da infância, sobretudo até o início da troca dos dentes, tem uma importância grandiosa para o seu novo projeto de vida e, como elas são ótimas observadoras, o primeiro a ser observado em tudo o que faz e como faz é o evangelizador, que, como educador de almas, deve começar por observar a si mesmo em tudo o que viva, sinta e faça, sendo um exemplo para os pequenos. (Steiner, 2012).
A educação da criança é a educação do espírito, mas não ele sem a vestimenta estética e de percepção que a criança tem, por isso se deve considerar exatamente esse ponto para um melhor aproveitamento da prática. Os benfeitores espirituais, na codificação, ressaltam o valor da educação espiritual, avisam também que não se trata de qualquer processo educativo, de qualquer forma de se abordar os conhecimentos, que seja meramente voltado para os elementos ordinários ou tão somente intelectuais da vida. Dizem eles que as grandes mudanças morais nas gerações virão
“não por essa educação que tende a fazer homens instruídos, mas pela que tende a fazer homens de bem” (Kardec, 2019, p. 392).
Esse é um trabalho a ser desenvolvido paulatinamente por aqueles que desejam se comprometer com as futuras gerações. O objetivo primeiro de evangelizar é tornar a criança uma pessoa de bem.
Quando o ser sai da erraticidade e retorna as paisagens materiais, vem para dar seguimento ao seu aprendizado, sempre visando, alguns mais e outros menos, o seu progresso moral e intelectual. Todos buscamos a felicidade, à reparação de nossos erros e o dirimir de nossas imperfeições, por isso o trabalho com as crianças é tão importante. Algumas doutrinas já consideraram, como ainda hoje veem assim, a criança como uma tábula rasa, como foi o caso do empirismo de John Locke[4], o qual, do ponto de vista espiritual, é insuficiente para explicar todos os fenômenos da infância. Por outro lado, também tivemos abordagens que traduziram essa percepção pelo outro extremo, como foi o caso das abordagens inatistas e maturacionistas, aquelas que tem em conta a ideia de que tudo o que a criança aprende é somente resultado da interação da experiência com o seu patrimônio genético e hereditário, por exemplo. Ambas não abarcam por completo o processo do que é educar uma criança do ponto de vista espiritual. Com o advento do construtivismo e suas múltiplas abordagens, então vimos um esforço um tanto mais elaborado para se entender a infância, a moralidade, a ética, os saberes necessários a prática educativa, etc.
Aqui abre-se um destaque as proposições de Rudolf Steiner[5], assim como com Heinrich Pestalozzi[6], os quais, certamente, elaboraram notável cabedal de conhecimentos em torno da relação da criança com o conhecimento, assim como do que é o conhecimento que transforma, que eleva o espírito humano.
Kardec escreve que
“desde o berço, a criança manifesta os instintos bons ou maus que traz da sua existência anterior” (Kardec, 2014, p. 198)
Mas isto não é resultado de sua genética material, porque herdou de seus pais, mas porque herdou de si mesmo, de outras vidas ou do período que ficou na erraticidade aprendendo novas lições. A criança é um ser em plena abertura para o novo, para uma mudança em sua forma de viver. A infância é o instante onde se podem desenvolver grandes modificações de padrões milenares de comportamento, porque é um período onde as crianças têm características comuns como a
“brandura, plasticidade, possibilidade de apreender conselhos dos mais experientes, receptividade às influências externas e aspecto de inocência” (2015, p. 17)[7].
Aqui se reafirma a tarefa primordial de educar um espírito não somente para a vida, desafio gigantesco para a educação formal, que ainda caminha pela abertura conceitual das habilidades socioemocionais como um primeiro campo de extensão até a sede do espírito, mas de preparo para às vidas, ao fluxo contínuo de ir e vir entre os dois planos de realidade, até a superação completa do ciclo das encarnações pelo espírito. Naturalmente, aqui ainda dos referimos as idas e vindas do ser em nosso plano, por nos faltarem elementos para nos referir a esse processo em outras dimensões da realidade que estão para além das cidadelas, colônias e educandários do mundo espiritual de nosso orbe. A questão é que, para utilizarmos um conceito comeniano de educação, poderíamos dizer que a educação é a influência que um espírito exerce sobre outro. De maneira que a orientação do evangelizador deve fazer parte das influências benéficas para o espírito que ocupe temporariamente o corpo de uma criança.
Educar para a transformação moral, para utilizarmos uma noção cunhada pelo codificador, é também estimular a imaginação, recriando as experiências pelos sentidos, é fomentar a ludicidade, muito própria desse período. O apelo ao desenvolvimento da memória também não é menos importante, pois é desenvolvida pelo processo de interação com os outros e pelo próprio desenvolvimento biológico. Cada dimensão cognitiva, quando ativada na sua relação com as virtudes, se potencializa, amplia-se ainda mais. O campo emocional é uma primeira ponte que interliga o coração à mente, criando conexões mais significativas da criança com relação ao conhecimento de natureza espiritual. Todas as competências podem ser bem desenvolvidas, quando bem orientadas por uma postura coerente e ética por parte dos evangelizadores, que devem sempre se posicionar como um modelo relativo de atuação no bem.
Os evangelizadores devem compreender que as crianças observam tudo, estão atentas a cada detalhe do que acontece. Por isso, um outro quesito indispensável é este: que o evangelizador seja coerente em tudo o que faça, ante os princípios da Luz, para que tudo quanto realize na sala da evangelização, se torne algo vivo, orgânico, real, até que as crianças possam ir percebendo que tudo provém de um modelo primordial que está para além de todos os seres, porque não pertence a este mundo e lhe é anterior e superior, que é a personalidade de nosso senhor, Jesus, a quem todos nós devemos buscar como o grande evangelizador das almas. Afinal, todos nós, em essência, somos como crianças a aprenderem com esse grande educador, que nunca deixou de ofertar lições preciosas em tudo o que fez.
Se na intimidade das salas de evangelização o trabalho é de moldar o futuro através do afeto e da imagem viva, no salão público o compromisso é com o despertar do agora. A palavra, quando proferida com sinceridade, funciona como um convite à reflexão e um bálsamo para as pessoas que buscam o templo em momentos de dor ou busca de sentido. Passamos, assim, do olhar sobre a educação da alma infantil para compreendermos como a vibração da voz e o conteúdo da Luz se fundem na tarefa do esclarecimento coletivo.
Palestra pública
Na exposição de vossas ideias, fazei-o com clareza, de modo a facilitar aos vossos ouvintes, não esquecendo que o verbo poderá ser o canal de algo mais que não seja o som.[8]
Fernando Miramez

De acordo com o dicionário etimológico “Origem da Palavra”, o termo “Palestra”, provém do Grego antigo “palaistra, “escola, local para exercícios”, de palaíein, “lutar”. Na Grécia antiga, esse era o nome dado a um local onde se fazia treinamento de lutas, lançamento de disco e outros esportes.”[9] O termo sofreu alterações ao longo do percurso histórico e logo chegou à ideia de falar, conversar, expor ideias. A palestra pública em um Templo da Luz nada mais é que, em moldes expositivos, tratar de algum assunto - utilizando a oratória e a retórica - que envolva a espiritualidade e as leis morais ensinadas pelo Mestre, sempre com o objetivo de ajudar no aprimoramento próprio e dos ouvintes. Nesse sentido, é uma experiência de abertura ao conhecimento, de concentração e também de pesquisa prévia por parte do palestrante. O cerimonialista e palestrante espiritualista Rui Inácio afirma que uma das tarefas fundamentais para um expositor ou palestrante é buscar conhecer a si mesmo, fazendo referência a um lema socrático antigo. Ele escreve que quatro “Agás” fundamentaram a prática da oratória e da retórica do instrutor grego Sócrates, os quais servem como modelos inspirativos para uma pessoa que deseje ampliar os conhecimentos com relação a comunicação. Se referindo a vida do filósofo, escreveu que ele:
“Com Humor convidava seus alunos para o aprendizado ao ar livre, com Honestidade passava-lhes o saber puro e através de sua Habilidade conduzia todos para o autoconhecimento e foi o último dos quatro Agás, o de Humildade, que ficou mais conhecido, chegando a eternizar-se com a célebre máxima “só sei que nada sei”[...] No diálogo socrático não tratamos com um mestre que comunica algo a um aluno. Mestre e aluno são consciências que conjuntamente procuram algo que se procuram.” (SILVA, 2010, p. 24).
Essa dinâmica socrática, fundamentada na horizontalidade do saber, é o que define a natureza da palestra pública em um ambiente de auxílio espiritual. Diferente de uma aula acadêmica fria, a exposição na tribuna deve buscar essa ressonância entre consciências. Para que isso ocorra, os 'quatro Agás' precisam ser transpostos da teoria para a vibração da voz. O primeiro deles, o Humor, surge aqui não como entretenimento, mas como uma estratégia de quebra de tensões vibracionais, permitindo que a mensagem penetre onde a rigidez do sofrimento costuma fechar as portas.
Uma pitada de humor sadio, despretensiosamente sereno e que revele um palavreado acolhedor, é sempre bem-vinda em uma exposição. Esse recurso funciona como um lubrificante para a alma, facilitando a recepção de conceitos complexos ou por vezes dolorosos. Naturalmente, como em todas as coisas, deve ser utilizado sem excesso, mas equilibradamente balanceado entre um assunto e outro; isso certamente suscitará uma sensação de alívio e aproximação com as pessoas. Do mesmo modo, ter honestidade é uma questão central para aquele que fala. Se, em qualquer lugar onde se fale em público já é constrangedor ver alguém mentir, que dirá dentro de um pronto-socorro espiritual. Ser honesto com o que se diz é a melhor forma de ter o coração apaziguado. Falar somente do que se sabe, contar histórias sem deturpá-las, mesmo que com um elemento ou outro de improviso, tudo isso colabora com a espiritualidade, que busca amparar o falante, nesse momento.
Não basta somente ser hábil para “ter o que dizer”, é justo “saber o que dizer”, até como uma forma de humildade e solidariedade para com o público, para isso é que se busca desenvolver a pesquisa, no sentido de sempre oferecer o melhor para os irmãos e irmãs que estão ouvindo. O orador é um servidor, por isso, deve oferecer a excelência de si para aos ouvintes, e essa habilidade também passa por estar atento ao clima do público. Se algum assunto está se tornando denso, difícil, basta diminuir a intensidade e complexidade do que se fala. Saber tornar palatável o assunto para o público é uma arte muito bonita que nem todos têm facilidade em desenvolver. Nessa frente de serviço, a humildade se torna um valor ainda mais evidente. Com ela, tudo funciona com naturalidade e sem inquietações.
Ter a humildade em compreender que mesmo que alguém tenha que dar uma palestra com duas horas de duração – o que já pode ser bastante cansativo para o público - o assunto nunca será esgotado, porque sempre haverá novas perspectivas, maneiras de abordar o mesmo assunto, buscando compreender que o conhecimento é infinito, assim como a criação de Deus também o é. Nada está preso ou estaticamente disponível em sua totalidade. Tudo está em fluxo, seguindo o curso do rio da vida. O que acaba de se explicar, mais adiante, poderá ter uma outra configuração. Compreender isso com as bases fundamentadas no ensinamento do Mestre dos mestres nos ajuda a caminhar até uma margem mais segura de equilíbrio durante a fala em público.
Mas, voltemos a uma questão. Como o público externo, em alguns casos, não está habituado com determinados conceitos e conhecimentos próprios da relação do mundo material com o espiritual, aquele que estiver realizando o diálogo, no esforço de interiorizar o que está propondo aos demais, deve expressar com simplicidade, o próprio mundo espiritual pela sua presença e fala. E não se trata de dar passividade a algum espírito, mas sim de expressar a própria espiritualidade, ou seja, suas melhores virtudes ao falar. A gentileza, a compaixão e a doçura são indispensáveis, afinal, as pessoas percebem, analisam, julgam, ponderam. Muitas são as expectativas dos corações quando se permitem estar em um pronto-socorro espiritual. Devemos levar em conta que estão ali por uma razão maior do que elas mesmas, imaginar o esforço que fizeram para estar ali, sentadas ou em pé, do esforço estejam fazendo para entender o que está sendo dito e do alívio por terem sido consoladas em um local acolhedor, onde reine a amizade e a concórdia.
As palestras mais sublimes já ouvidas foram aquelas proferidas pelo Meigo Nazareno. Não se havia púlpito, nem microfone, nem algum outro apetrecho adicional que hoje se utiliza, ainda assim, quais palavras o mundo já pôde ouvir que foram mais impactantes para o desenvolvimento espiritual em nosso planeta? Veja-se que o mais importante em uma exposição não são os recursos materiais à disposição, mas a disposição do coração em se preparar para uma boa conversa, tratando dos mais elevados temas com clareza, disciplina, amor e humildade.
A energia do local de fala é degustada por todos os partícipes, todos podem se alegrar com a bem-aventurança de uma boa conversa, por isso, olhar para cada pessoa como um templo vivo de oportunidades renovadoras e constantes é um passo fundamental a ser dado antes de se usar a palavra. Falar deve ser um grande gesto de humildade e boa vontade junto à comunidade.
Olhar nos olhos dos que ouvem, isso é parte integrante no processo.
Os antigos pensadores gregos, quando se referiam aos oradores, diziam que, ao final da fala de um bom orador, o que as pessoas mais deveriam comentar era sobre o tema da palestra e não sobre o falante. Por isso, nenhuma referência pessoal é bem-vinda durante esse tipo de tarefa, mesmo que a pretexto de mostrar os nossos equívocos, porque isto também pode ser danoso e interferir em nossa própria experiência. A lição e o aprendizado são um só. Há irmãos que seguem adiante, em seus compartilhamentos orais, sem se aperceberem que estão sempre colocando seus méritos e referenciais muito pessoais sobre o que se deseja saber, isso ainda é um demonstrativo de algum nível de orgulho e egoísmo. Exemplos do cotidiano, histórias, aforismos, poesias, músicas, arte, tudo pode ser um bom recurso para uma exposição oral bem-intencionada, considerando que a base fundamental de qualquer palestra pública é o Amor incondicional a Deus e ao próximo, sempre com humildade e de forma universal.
Quando o espírito está imergindo no mar imenso da caridade, procurando a pérola sagrada da instrução, precisa ir no mais profundo que possa alcançar dessa experiência e, quando firma na direção da transformação moral, encontra o brilho da pérola em cada parte que mergulha nesse oceano que é a vida. O que se fala sobre o amor do Cristo irradia, formando círculos luminosos, encantando o olhar e o ouvir percuciente do público.
Viver o evangelho de Jesus é a melhor forma de palestrar. Sejam dez minutos ou uma hora de exposição, se o tarefeiro está tomando consciência dessa nova realidade, dando passos dentro deste espaço sagrado pela prática, então não haverá motivo para receios em coordenar uma boa palavra às pessoas pois, de acordo com o espírito Erasto, quando se referiu aos nobres buscadores da Verdade em Cristo, disse:
“vossas línguas se soltarão e falareis como nenhum orador fala. Ide e pregai, que as populações atentas recolherão ditosas as vossas palavras de consolação, de fraternidade, de esperança e de paz.” (Kardec, 2014, p. 262).
Outro ponto relevante tem a ver com o formato das palestras. O facilitador deve estar à vista de todos, mas não se furtará a ouvir quem precise tirar uma dúvida. O tempo mais importante é sempre o de ouvir, não o de falar. Quando alguém pedir para tirar uma dúvida, não se deve ter receios em escutar as angústias e a levar uma palavra de apoio e coragem. Caso o expositor perceba alguém com a intenção apenas de gerar dúvidas no público, então o questionador deve ser convidado a frequentar os estudos da casa, que é o lugar propício para o diálogo mais aberto, voltado para uma integração maior de opiniões, sempre com uma postura acolhedora.
O irmão que se interesse pelas exposições é convocado a constância de pesquisas frequentes. Os livros da doutrina espírita são sempre uma boa referência. Além das obras da codificação – que são publicações essenciais para o conhecimento da estrutura do mundo espiritual – tem-se hoje um catálogo de dezenas de milhares de livros que vão desde romances até publicações de natureza científicas e filosóficas dentro do conhecimento espiritual. O estudante não deve temer o estudo de obras espiritualistas - de natureza iniciática ou não - que venha a colaborar com o desenvolvimento de seu espírito e das coletividades, mas evitará tratar de assuntos mais profundos no contexto das palestras, no sentido de que, quem muitas vezes ouve, está buscando primeiramente uma consolação, um apoio, uma esperança. Assuntos mais complexos e aprofundados devem ser tratados, preferencialmente, nos encontros para estudos espirituais do templo. Cada perfil de público deve ser sentido pelo expositor, que deve manejar sua fala sempre para elevar o padrão vibratório do entendimento, nunca para se exibir ou confundir as pessoas com assuntos que não conheça bem.
Todos os grandes oradores são assim chamados não porque falam muito ou falam bem, mas porque realizam as boas obras das quais tanto falam, não esquecer disso é uma chave importante para se entender a importância desse trabalho. Falar e fazer devem ser indissociáveis. A grande questão para o facilitador é sempre a da coerência, como ensinou o Mestre tantas vezes aos sacerdotes e homens públicos de seu tempo.
Se a palestra pública é o convite amoroso que atrai o caminhante e oferece o primeiro alívio às suas dores, a sustentação desse novo estado de consciência exige um mergulho mais calmo e detalhado nas fontes do saber. A palavra proferida na tribuna desperta a sede; contudo, é no ambiente de estudo que a alma encontra o tempo e o método para sorver, gota a gota, o conhecimento que liberta. Passemos, então, a compreender como pode se organizar o campo dos Estudos Espirituais, onde a curiosidade se transforma em disciplina e o ouvinte se converte em um operário consciente da própria iluminação.
Estudos espirituais
A Ciência do Espírito proporciona o bem geral definitivamente, concedendo às criaturas a paz e o contentamento de viver.[10]
Hammed

Dentro das vivências do evangelho sagrado, que pode ser identificado em toda a natureza, muito é possível se fazer para progredir as coletividades. Para que essa progressão seja efetivada, há dois elementos que são essenciais: o amor e a sabedoria. É claro que estas palavras não detém aqui o sentido comum que lhe são dadas, quando, em algum contexto, se diz que alguém é sábio ou que agiu por amor, mas é em um sentido mais profundo, ampliado pela compreensão da Espiritualidade e da Grande Luz.[11]
Quando, de forma equilibrada e consciente, nos conectamos com a fonte da Luz, com a presença do divino em nós, então, podemos dizer que começamos a aspirar na atmosfera luminosa do amor. O que se pode dizer dessa quintessência é ainda insuficiente, dada a extensão do que promove no espírito esse estado de ser. Alguém poderia se perguntar, então: como nos conectamos com a fonte divina? Primeiro logramos dizer que essa questão tem variados níveis de resposta. Podemos realizar este movimento de muitas maneiras, tendo em conta os infinitos portais de acesso ao Bem, que, de forma profunda, é somente Um, mas aqui cabe dizer algumas coisas que nos parecem indispensáveis: o contínuo trabalho com a caridade, o estudo incansável dos conhecimentos superiores, além do desenvolvimento constante da contemplação às estruturas da Luz, pois eles fortalecem a presença da harmonia interior, que pode ser o primeiro passo em direção a essa conexão profunda. Tudo isto também é uma conjunção. Não há separação real nessa tríplice percepção. Na posição de seres que passam por uma experiência corporal neste planeta, temos que nos esforçar, cada vez mais para avançar nos infindáveis aspectos intelecto-morais, e isso resultará na ampliação de nossa liberdade de ação e de consciência. Poderíamos apresentar esse humilde conjunto da seguinte forma:

· Sobre a caridade
O contínuo trabalho com a caridade é o exemplo sublime que os instrutores da espiritualidade nos revelam e comprovam pelas ações e intenções. Chico Xavier[12], Alessandro Caliostro[13], Madre Teresa[14], são alguns nomes que poderiam ser colocados para, em uma análise biográfica séria, pensar-se a respeito dos potenciais que guardamos, como seres espirituais encarnados, em nossos campo emocional e mental. Quando fazemos do Amor a Lei de nossa vida, quando declaramos isso através das nossas atitudes, sendo gentis, sinceros, mansos, honestos, corajosos para mudar o que é necessário, então a caridade, amiga sincera dos que se afeiçoam a ela, estende os braços para vivermos em sua presença.
O Buda Gautama[15], quando em vida, pode exemplificar bem a ação concreta de ajudar as pessoas. Foi um professor prático, um mestre do cotidiano e das coisas simples, alguém que não estava muito interessado na especulação filosófica, mesmo sendo maior que o mais respeitado dos sábios de seu tempo, teve como propósito apaziguar o campo emocional turbulento dos homens e mulheres, ensinando o caminho da compaixão e retidão. Ele foi um grande exemplo de caridade.
O exercício da caridade implica em uma continuidade que sempre é ativada pelo coração. A ação é a sua implicação mais imediata e simples. Vejamos. Quando alguém toma uma atitude de agir pelo bem dos outros, com a doação de algum produto que irá beneficiar materialmente o outro, no ato, ao primeiro contato com o “beneficiado”, uma série de pensamentos de naturezas diferentes, inclusive julgamentos confusos, podem passar pela mente do benfeitor, que, mesmo não parando para contemplar imediatamente o que lhe está povoando o pensamento, ainda assim legitima o seu gesto em direção à benfeitoria. Quando isso acontece, a atitude é louvável, mas ainda poderia ser tida como uma ação incompleta. É como se somente uma parte da alma da pessoa estivesse agindo ali, um fragmento. A ideia é tornar um gesto de caridade algo completo, onde a pessoa esteja de corpo e alma purificados na ação. O benfeitor espiritual Hammed postula que a natureza do ser benevolente não dá nomes e nem cria qualquer rótulo às pessoas que ajuda pois
“simplesmente analisa os fatos com imparcialidade e considera os indivíduos como portadores de diferentes filtros mentais” (Neto, 2003, p. 200)
Ou seja, compreende cada qual como é, sem passar pelas generalizações que fazemos a respeito da vida. Compreender isso e agir em conformidade com a imparcialidade já seria uma etapa mais avançada da prática da caridade.
A vida é um fluxo constante, agir de forma cada vez mais fraterna, visando a caridade como um bem comum é um passo decisivo para a nossa reintegração com a essa substância. A caridade é o deslocamento sublime da alma em direção a Luz. Assim, um gesto realizado com toda a força de intenção para o bem - em múltiplos níveis - é uma prática mais completa, porque há aí um conteúdo abundante. Quando o Grande Mestre avisou que “pelos seus frutos os conhecereis”[16], certamente deixou claro que há níveis de obras também. Nas palavras do Mestre:
Ouvistes o que foi dito: “Amarás o teu próximo” e “Odiarás o teu inimigo”. Eu, porém, vos digo: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que vos torneis filhos do vosso Pai {que está} nos céus, já que seu sol desponta sobre maus e bons, e cai sobre justos e injustos. Pois, se amais os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem o mesmo os publicanos. E se saldai somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem também os gentios o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos, como é perfeito vosso Pai Celestial. (Mateus, 5:43 a 48)[17].
A orientação direta dessas ações acontece de forma interligada, portanto. Se antes era só amar os que nos amam e odiar os que nos odeiam, com o Cristo a prática se expande, o amor passa a ser aos inimigos. Muitas são as formas de se praticar essa virtude. Ouvir atentamente o que alguém diz é também uma ação caritativa. Falar somente o que edifica, corrigindo os exageros, também faz parte do exercício da caridade. Expandir a existência para além do círculo estreito das coisas ordinárias é se permitir a caridade. Fazer orações por aqueles que não nos aceitam como somos, e que nem nos compreendem, são exemplos dos graus múltiplos dela. Se não houvesse uma progressão no entendimento da Lei Maior, o Mestre não teria deixado claro uma reforma prática às leis mosaicas.
A duras penas, muitas das vezes, os homens vivem para superar a dor moral que a ferida aberta do egoísmo causa. E, dentre aqueles mais corajosos que extrapolaram essa margem, conseguimos perceber de seus resultados, magníficos ensinamentos que trouxeram à humanidade. A intenção de servir para aproximar todos os corações do Amor é um movimento que começa de dentro para fora e, quando se externa, interage diretamente com os que mais precisam dessa manifestação. Não é à toa que capítulos inteiros da Codificação Espírita foram dedicados ao incentivo à prática da caridade, não é sem razão que milhares de livros espiritualistas são dedicados à essência do evangelho de Jesus, que foi e é o modelo e guia desse caminho.
Então o leitor amigo poderia se se perguntar: mas em que ponto a caridade toca nos estudos espirituais em um pronto-socorro? É indispensável compreendermos que a caridade não é apenas uma virtude moral, mas a base epistemológica do próprio estudo. Enquanto o estudo teórico nos fornece o mapa da vida espiritual, e enquanto prática é a caminhada que valida as coordenadas. Não se estuda o espírito como se estuda um objeto inanimado em um laboratório; o espírito só se revela no dinamismo da relação com o outro.
Nesse sentido, a caridade funciona como o 'filtro de clareza' para o estudante: sem o exercício do amor prático, a mente se torna um campo fértil para o orgulho intelectual, que obscurece a percepção das verdades sutis. O estudo espiritual exige uma 'limpeza vibracional' que só o esquecimento de si mesmo — provocado pelo serviço ao próximo — pode oferecer. Assim, o estudo ilumina a caridade para que ela não seja cega, e a caridade aquece o estudo para que ele não seja frio. Estuda-se para servir melhor, e serve-se para compreender o que se estudou.
Por essas e por tantas outras razões, essa virtude celestial é algo que perdura nas dimensões espirituais. Grandes edificações do astral da Terra foram construídas para a manutenção da prática caritativa. Vemos o resultado disso nas colônias, santuários e templos, como é o caso do Templo dos dois irmãos[18], o Templo da Paz ou mesmo a Colônia Lírios do Vale.
Compreendida a caridade como esse motor vibracional que nos sintoniza com o Mestre, torna-se evidente que a ideia do amor, por si só, necessita de uma diretriz para que sua força não se disperse. Se o sentimento é a energia que nos impulsiona, a instrução é o leme que nos orienta nas águas profundas do conhecimento universal. Sem a luz do saber, a caridade corre o risco de tornar-se assistencialismo emocional; sem o calor da caridade, a instrução corre o risco de tornar-se orgulho intelectual. É na fusão dessas duas asas que o espírito encontra o equilíbrio para o voo ascendente. Passemos, portanto, a refletir sobre a importância da Instrução — esse estudo incansável que transmuta a curiosidade em sabedoria e a crença em convicção inabalável.
Sobre o estudo
O valor do conhecimento é testado pelo seu poder de purificar e enobrecer a vida,
Annie Besant.[19]
João Evangelista, o sublime instrutor, chega a dizer diretamente a Kardec:
“o homem quintessencia o espírito pelo trabalho e tu sabes que só mediante o trabalho do corpo o Espírito adquire conhecimentos. ” (Kardec, 2019, p. 48).
Essa "quintessência" mencionada pelo evangelista revela que o aprendizado não é um acúmulo passivo de informações, mas um esforço ativo de depuração da alma. Movimentar a massa mental e corpórea em direção a Luz é dar testemunho de busca pelos mistérios da sabedoria. [20] Adquirir, revisar e ampliar essas matrizes, é viver na presença dela, alcançando o estágio sagrado da simplicidade, da humildade e do amor depois de percorrer todos os degraus e dimensões da experiência do aprendizado, compartilhando os ensinamentos com fraternidade, compaixão e respeito às pessoas. Aí está uma das portas que conduzem ao início da sabedoria. [21] Por isso é necessário um estudo incansável dos conhecimentos superiores.
Amar, a primeira coisa, se instruir, a segunda (Kardec, 2019), assim foi ensinado pelo Espírito da Verdade. Quando nos referimos ao estudo, falamos primeiramente de sua base, a qual deve ser o amor. Quando estudamos, é o amor que leva-nos à instrução. O conhecimento sem a diretriz do afeto corre o risco de tornar-se uma ferramenta de dominação ou vaidade, pois, como bem pontuado na obra de Souza:
“A razão despida do sentimento é fria e tanto pode produzir o bem quanto o mal” (Souza, 2009, p.15).
Até mesmo a ideia de “progresso”, se não considerar um amor genuíno as pessoas, se torna insuficiente, para não dizer contraditório, bastando observar as guerras e conflitos desde o início do século XX para cá. Somente nos aproximando das bases dos ensinamentos da Grande Luz é que encontraremos um bom discernimento para alcançarmos, um dia, a sabedoria. A sabedoria, portanto, não é um troféu intelectual, mas uma expansão da consciência que nos permite enxergar a divindade em tudo.
Na obra “Reportagens de Além-túmulo” o instrutor Humberto de Campos reforça que
“sabedoria não significa cristalização no círculo individual, antes é penetração no país infinito da verdade divina, cuja luz palpita no maravilhoso plano de unidade, através de todos os seres.” (Xavier, 1943, p. 64)
A lucidez do entendimento não está aqui e nem acolá, o verdadeiro conhecimento pode ser acessado em toda parte, desde que a pessoa se permita e se entregue a ele, mergulhando na fonte de água viva. [22] Essa onipresença da verdade divina nos convida a uma postura de humildade intelectual, reconhecendo que a luz pode vir de qualquer direção do horizonte espiritual.
O sábio Ibn Árabi [23], em um de seus escritos antigos, quando falava sobre a importância das revelações divinas ao homem, afirmava que, quando uma revelação divina relampejava no leste, todos corriam para viver e contemplar o leste e diziam uns aos outros “vejam com o leste é sagrado”, e quando outra relampejava no oeste, muitos corriam, com o mesmo objetivo, para o outro lado, dizendo “na verdade o oeste é que recebeu grande luz sagrada”. Mas, na verdade, o mais importante é que nosso anseio seja pela luz que relampeja o entendimento, não pelo lugar onde ela se manifeste (Santos, 2024).
A cada um é revelada a verdade que está pronto para compreender, já diziam sábios da antiguidade. Se fôssemos nos referir à lição da reencarnação dentro do atual movimento protestante brasileiro, certamente seria desconfortável para os confrades evangélicos ouvir sobre este tema. Do mesmo modo com as revelações sobre o mundo espiritual, sempre há algo a se saber que ainda não sabemos. É um processo ininterrupto de desvelamento das informações, ou, nas palavras dos imortais:
“a cada geração, uma parte do véu se dissipa (Kardec, 2019, p. 348).
Cada passo, dentro de uma busca sincera por conhecer e viver os ensinamentos é um caminhar para a própria humanidade regenerada. Esse avanço, contudo, exige o equilíbrio entre as duas forças que sustentam a alma: a inteligência que questiona e o coração que acolhe. Como somos razão e emoção, na busca por nos instruirmos, devemos considerar as dimensões cognitivas e emocionais. Emmanuel convida-nos a esse despertar gradual da alma, quando diz:
“Iluminemos, pois, o raciocínio sem descurar o sentimento. Burilemos o sentimento sem desprezar o raciocínio. O Espiritismo, restaurando o Cristianismo, é universidade da Alma. Nesse sentido, vale recordar que Jesus, o Mestre por excelência, nos ensinou, acima de tudo, a viver construindo para o bem e para a verdade, como a dizer-nos que a chama da cabeça não derrama a luz da felicidade sem o óleo do coração”. (Xavier, 1988, p. 67).
Para conhecer é indiscutível a pesquisa constante, o debruçar-se sobre as obras, os escritos, os ensinamentos, inclusive de diferentes tradições religiosas e filosóficas, e, ao mesmo tempo, buscar incessantemente o autoconhecimento, a reforma íntima, de maneira que o espírito depure cada vez mais os seus interesses, recriando sua escada astral até uma visão mais ampla do que se quer ver. Não deixar de lado as boas referências, não esquecer de praticar os ensinamentos, tudo isto conserva os primeiros passos até o contemplar de novas realidades.
Cada um caminhará com as passadas possíveis de serem firmadas na estrada da vida. Não se exigirá que, em uma só encarnação, alguém compreenda e realize tudo o que não o fez em todas as anteriores, mas o pedido dos irmãos espirituais é sempre que a pessoa comece, desenvolva-se e que continue e amplie o que já realiza de instrução. Instrução é educar a mente e a ação através do coração, é caminhar para, um dia, contemplar a Luz do Cristo.
A jornada da instrução, portanto, não termina no processamento de ideias ou na leitura das obras. Há um estágio onde o esforço do raciocínio e o calor do sentimento precisam se aquietar para que a verdade se revele em sua forma mais pura. Se a instrução nos ensina a aprender, o próximo passo nos ensina a ver. É o momento de silenciar o diálogo externo para ouvir a sinfonia interna do Divino. Adentramos, assim, no campo sagrado da Contemplação, onde o conhecimento deixa de ser apenas uma lição aprendida para se tornar uma realidade vivida no silêncio da alma.
· Sobre a Contemplação
A vontade que tive ao contemplar aquele espetáculo foi de ajoelhar e chorar de gratidão, mas o nosso instrutor espiritual olhou para todos nós com meiguice e falou com ponderação: - Vamos trabalhar?[24]
João Nunes Maia
Para um melhor aproveitamento dos estudos espirituais, o tarefeiro deve trabalhar para - pelas faculdades orgânicas - apreender algum aspecto do mundo espiritual. É o ver, o ouvir, o sentir as dimensões superiores e, de algum modo, tocar o próprio coração, realizando pequenas transformações nos campos emocional, psíquico e espiritual. Isto, é claro, primeiramente em si, e, em seguida, em todos os que estejam vibrando na mesma sintonia. É importante lembrar que esses acessos podem ser promovidos, ou pedidos, pelo espírito que demonstre vontade firme no desenvolvimento constante da contemplação às estruturas da Luz.
Esse caminhar em direção à vida sutil se apresenta para nós por alguns canais. Um sonho espantosamente belo e de grande aprendizado que alguém tenha, numa noite onde tenha se organizado para dormir bem; o preparo disciplinado e constante para uma projeção astral consciente com a intenção de tirar dúvidas diretas com os benfeitores no astral, solucionando questões complexas sobre o que julgar necessário e for cabível à determinada situação; uma forte intuição para realizar uma prece por alguém, onde as lágrimas brotem copiosamente dos olhos daquele que sentiu compaixão ou apreço pelo outro ao concretizar o ato salutar da evocação simples e digna; o esforço e aprofundamento dos estudos espirituais; a formação de círculos de mentalização com um grupo inteiro, onde cada um dispõe e une suas forças mentais e emocionais, mobilizando o fluxo do sentimento na direção do equilíbrio moral de desconhecidos que estejam em sofrimento moral ou físico; a submissão, em encarnações inteiras, para erguer coletivamente estruturas astrais do bem a partir da formação mental de luzes, cores, sons e formas em prol de vilas e bairros inteiros da nação em que se tenha a intenção de ajudar; a construção astral de postos avançados de esclarecimento, reeducação e fortalecimento das bases morais para países e continentes. Isto tudo implica em determinado conjunto de esforços, individuais e coletivos, além de um preparo intensivo de todas as dimensões conhecidas do espírito. Notadamente nem todos esses fenômenos são possíveis de serem realizadas considerando o nível evolutivo geral dos encarnados de nosso planeta – e nem é nossa pretensão dizer - mas é para termos uma ideia do quanto os caminhos são longos até uma contemplação mais profunda. Contemplar, portanto, não é um ato de passividade mística, mas um exercício de alta voltagem espiritual que exige do tarefeiro uma estrutura íntima capaz de suportar a intensidade da Luz que se revela.
Contemplar é como um resgate doloroso e privilegiado de serviço e caridade pela ação do espírito. É a retomada do pensamento mágico[25] na vida cotidiana, que anda tão perdida em seus critérios meramente materialistas. Naturalmente esse conhecimento contemplativo é de uso cotidiano dos espíritos superiores, que bem direcionam as conjunturas que visam promover a saúde, a educação, a purificação espiritual das massas. Em cada uma dessas conjecturas e estruturas de conhecimento e ação, há um elemento chave que primeiro chega até o coração, o qual comunica a essência do ser humano com o brilho inicial das coisas divinas.
A ampliação da contemplação do espírito à realidade espiritual e suas formas, é, inicialmente, feito de forma mais individualizada, em momentos de calmaria, onde o estudante se dedique inteiramente aos exercícios de meditação, silêncio, leitura ou de introspecção. Como as conexões voltadas para as “coisas de cima” são formatadas com mais sutileza, então é justo que antes, durante e após um contato espiritual contemplativo, por exemplo, o irmão ou irmã possa evitar determinados assuntos ou contextos, o que, sendo ignorado, fará perder-se boa parte da orientação que seja ofertada do além. Sobre esse aspecto, o célebre instrutor espiritual, Ahnamah, afirma que, quando um médium ou canalizador, pela contemplação, recebe instruções espirituais ou inspirações, deve o receptor permanecer, logo após esse momento contemplativo, na frequência da serenidade, porque se passar por uma contemplação ou até mesmo uma canalização e logo em seguida se envolver com atividades mundanas, então o fluxo da energia benfazeja logo se perderá. (Jones, 2019). Esses fenômenos sempre estão acontecendo nos encontros para estudos espirituais. Se algum facilitador de estudos do ESDE perguntar aos estudantes a respeito de algum caso de contemplação, facilmente encontrará algumas narrativas interessantes. Essa abertura para a experiência é importante, principalmente quando é voltada para tratamento do grupo.
Basta lembrar que o mesmo templo que educa é o que ajuda a curar. Enquanto as aulas de estudos espirituais acontecem, sempre deve haver pequenos momentos para tratamentos espirituais. As aulas devem ter, nem que seja por poucos minutos, um instante para encaminhamento das energias dos participantes. É bom que essa parte seja feita antes do início da aula, para que tudo possa transcorrer com tranquilidade, inclusive.
Se em uma contemplação alguém recebe informações do astral, esse logra o benefício e a responsabilidade de utilizar bem aquelas instruções, realizando suas tarefas e manejando de forma satisfatória as sugestões de cooperação, serviço ou reflexão justa. Aquele, no entanto, que tão somente recebe as boas palavras e nada aproveita, esquece que, quando o além nos revela um código divino, também recai sobre nós a responsabilidade sobre aquela revelação. Cada lição, sobretudo aquelas que são dadas por mestres ou mestras, tem sua anti-lição, que é resultado direto do não agir conforme o que foi orientado. Receber uma nova lição é receber uma ativação cármica sobre o que está sendo revelado. Tudo o que é acessado verdadeiramente pela contemplação é, na verdade, um conhecimento até então oculto e indecifrável para a pessoa ou grupo, e, quando revelado, traz ao buscador da reforma íntima, uma nova compreensão da realidade.
A contemplação é um estado mais ampliado da própria consciência, pois diz respeito a observação da realidade em muitos planos. É uma atividade, muitas das vezes voluntariamente procurada pelo aprendiz do Cristo e, às vezes, acontece de forma “espontânea”. A primeira é, em muitos casos, um pouco mais rara e a segunda, um tanto mais comum, ainda que sejam, de forma geral, acontecimentos relativamente raros, porque a humanidade ainda está muito inconsciente das revelações espirituais e poucos são as pessoas que empregam grande vontade para a contemplação do Eterno.
A contemplação pode ser um caminho que conduz a prática da mentalização, pois que, de paisagens contemplativas, com o aproveitamento sincero das orientações - vivências maravilhosas em outros planos da realidade astral - a pessoa poderá passar para a prática da caridade em níveis ainda mais sutis com consciência, intervindo bondosamente em contextos e em pessoas. A contemplação, depois de muito exercitada na sua introspecção, pode ativar elementos ligados ao nosso passado, fazendo-o vir à tona. Verdadeiras reminiscências começam a aparecer, informações que vão sendo reveladas aos poucos, em concomitância às nossas intenções e perseverança. É uma fase natural. Assim sobrevém novas responsabilidades, principalmente aquela de não se envaidecer ou se revoltar com as informações sobre o passado. Simultaneamente, surgem também as informações ligadas ao propósito de vida, direcionamentos de tarefas, etapas a serem cumpridas e assim sucessivamente. É um processo de reintegração de posse da nossa mentalidade ampliada. Esse é um aspecto mais individualizado da contemplação, e tende a acontecer em momentos de estudo individual.
Tomemos um caso de contemplação de Pai Francisco, narrado pelo espírito Fernando Miramez, pela mediunidade firme de João Nunes Maia. Em muitos momentos, o Poeta de Assis vivia como que transportado para fora de si mesmo, e esses instantes eram sempre respeitados pelos seus discípulos mais íntimos. Sudorese, palidez e queda da pressão arterial eram as expressões dolorosas do brilhar de uma estrela no mundo. Seu coração, puro e humilde, era como uma usina de luz, uma cachoeira de bênçãos que jorravam para dessedentar todos aqueles que buscavam a Jesus através dele. Sua personalidade era uma manifestação contínua de alegria e esperanças, aliadas a um equilíbrio profundo e uma boa vontade incansável.
Quando as contemplações se apresentavam ao seu espírito, tudo era experienciado de maneira diferente. Certa feita, após arredia conversa com seu pai, que tinha um temperamento muito diferente do seu, Francisco, naquela época, um jovem, estava angustiado por perceber essas contradições do mundo, onde o paradigma é o dinheiro ser rei e todos reverenciarem-no como servos, resolveu se recolher aos seus aposentos. Com o coração sofrido por não encontrar correspondência aos princípios que já guardava em seu coração desde muito antes dessa vida, passamos a encontra-lo
em seu luxuoso quarto, vestido com roupas de esplêndida beleza para as horas de descanso. Seus pés descalços afundados em grosso tapete, não apareciam. Sentindo-se desajustado naquele ambiente, não conseguiu naquela noite, conciliar o sono, na necessidade de descanso, ainda que desfrutando do conforto habitual e com a cabeça despreocupada, no tocante às coisas materiais, ele, o missionário do amor, estava inquieto para começar seu trabalho. (Maia, 2002, p. 149).
Francisco, mesmo sendo tão novo, já sentia vibrar profundamente em seu coração um compromisso antiquíssimo, e resolveu pedir orientação, pedir uma resposta a sabedoria divina, com relação ao seu propósito naquela vida. Após os desabafos iniciais de sua prece, pediu humildemente que pudesse contemplar sua tarefa, o objetivo de estar naquele lugar. Pediu a Jesus que o envolvesse, o revelasse, e o pedido de contemplação foi atendido:
Francisco estava inundado de luz! Num momento, deu-se suave estalo centro da sua vida. Seu córtex cerebral tomou-se um sol, irradiando uma luz encantadora. Os terminais nervosos que se encaixam no crânio se avolumaram, dando para todos os centros de força uma energia divina, suspendendo o espírito a alturas inacessíveis, colocando-o a respirar com divina força da vida. Seu peito parecia uma constelação, onde as estrelas brincavam de esconder e ressurgir. Cores variadas cruzavam seu ser em êxtase. O coração do rapaz absorvia as claridades, sem que a escrita pudesse explicar, sem que o verbo encontrasse recursos para reproduzir. Uma auréola em que o azul celeste predominava, tomou o centro das suas emoções e, no meio do coração, abriu-se uma estrela de luz. Naquela via interna de Francisco, sem que ele percebesse, andava um mancebo iluminado, que poderíamos traduzir como sendo um sol dentro de outro sol. Porém, aquelas imagens passavam pelos centros da vida, tomando dimensões favoráveis, recebendo certa consistência no coronário. Eram ampliadas pelas glândulas pineal e pituitária, encaixando-se na retina, deixando Francisco contemplar perfeitamente o que se passava dentro de si. O fenômeno divino, pela vontade de Deus, pela presença do Cristo em seu íntimo, era Jesus andando no mundo do seu coração, falando aos ouvidos da alma e acompanhando as suas palavras, as imagens correspondentes. (Maia, 2002, p. 151)
Aqui estamos diante de uma manifestação mais elaborada da contemplação, a qual, por sinal, foi muito bem aproveitada. Quanto maior for a necessidade de um espírito entender com mais profundidade o propósito de sua caminhada, mais claramente as informações chegam. Se for unicamente para satisfazer curiosidades ou apenas para inflar o ego, a pessoa até acessará algumas informações, mas logo esse fluxo cessa, para que não haja nenhum embaraço maior em seu percurso. A contemplação é, em última análise, o encontro da pequena luz do homem com o Sol do Cristo, um diálogo silencioso onde as palavras são substituídas por certezas vibratórias.
Para que pudéssemos entender um tanto mais sobre essas etapas iniciais da contemplação, que podem tanto atrapalhar - quando paralisam a ação benéfica dos irmãos no mundo por causa da vaidade- quanto dilatar as potencialidades latentes e eternas do ser, é que é importante ressaltarmos a relação entre a contemplação e o desenvolvimento da instrução e da caridade.
Frente imprescindível de serviço no bem, portanto, os estudos precisam acontecer junto com a contemplação dos ensinamentos da espiritualidade. É justo lembrar sempre desses três humildes pontos: o amor vem primeiro, o estudo é para o desenvolvimento integral do espírito e a contemplação deve ser parte integrante desses momentos. Se a Caridade é a mão que ampara e a Instrução é o olho que guia, a Contemplação é o coração que compreende o porquê de tudo existir. Nos referimos aqui aos níveis introdutórios da pesquisa e estudos espirituais, aqueles que vão desde as proposições de filosofia espírita, como os tomos I, II e único do ESDE até o estudo teórico da mediunidade e até mesmo estudos espiritualistas em nível introdutório. Abrir o horizonte do pensar, sentir e agir é determinante para um desenvolvimento maior da espiritualidade das pessoas.
Praticar a caridade, envolver-se na instrução e contemplar novos horizontes é mergulhar num oceano belíssimo de possibilidades para se alcançar a Luz.
Por fim, esta breve contribuição não teve por objetivo aprofundar temas que a eternidade ainda levará muitos anos para nos descortinar, mas sim lançar um feixe de luz sobre a urgência de unirmos o conhecimento à prática vivida das virtudes. Ao narrarmos os bastidores e a arquitetura básica de funcionamento de um pronto-socorro espiritual, buscamos apenas abrir uma pequena fresta para que o leitor pudesse vislumbrar a complexidade e a beleza que operam no invisível. Reconhecemos que tudo o que aqui foi relatado não representa nem um por cento da vastidão de projetos, sacrifícios e obras que grupos anônimos realizam em todas as dimensões do ser.
A Casa dos Espíritos é apenas mais um desses modestos agrupamentos de irmãos que, entre tropeços e acertos, decidiram ofertar o seu esforço na direção do Bem Comum. Enfrentamos sim desafios, limitações e as naturais dificuldades de quem ainda tateia no escuro da matéria, mas seguimos com a convicção de que cada gesto de caridade, por menor que seja, ressoa no infinito.
É importante sublinhar ainda que nada do que aqui foi dito é, em essência, uma "novidade" trazida ao conhecimento espiritual. Não pretendemos a mínima autoria parcial do que é eterno. Pelo contrário, buscamos apenas o exercício da repetição amorosa, traduzindo em novas palavras e novos contextos — como nas terras potiguares de Natal e de tantas outras cidades que oferecem suas pequenas e valiosas contribuições — aquilo que os Mestres Ocultos da humanidade já entoam há milênios nos ouvidos de quem se permite escutar. O que fizemos foi apenas revisitar as bases, as mesmas vigas que sustentam a Fraternidade Universal, lembrando que a reforma moral e o estudo incansável são o único caminho seguro.
Mais adiante, em novos volumes e oportunidades, traremos outros desdobramentos, explorando o trabalho em outras instituições e os mistérios que ainda aguardam o momento justo de serem revelados. Por ora, que este primeiro passo sirva como um convite à interiorização e ao serviço. Que possamos, juntos, ser pedras vivas na construção desse Templo da Luz que não tem paredes, mas que se ergue toda vez que um coração se dispõe a amar.
Salve às luzes de Aruanda!
Salve os Ensinamentos dos Mestres da Fraternidade Universal!
Salve o Senhor da Luz!
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Raul César
Equipe Cantinho dos Anciãos
Notas:
[*] O Evangelho Segundo o Espiritismo (Kardec, 2014, p. 130).
[**] No evangelho de João (10:34), lemos a seguinte passagem, na íntegra: Não está escrito na vossa lei: eu disse: Sois deuses? (Dias, 2016, p. 431).
[1] (Pereira Franco, 2017, p. 42)
[2] Trecho retirado do livro “Desobsessão – a terapia dos imortais (Pinheiro, 2007, p. 22).
[3] Trecho retirado de carta psicografada pelo médium Divaldo Franco em 18 de janeiro de 1978 no Centro Espírita “Caminho da Redenção”, em Salvador-BA e publicada na revista Reformador, FEB, em junho do mesmo ano.
[4] O termo "tabula rasa" foi cunhado pelo filósofo inglês John Locke, no século XVII, trata-se de um argumento que defende que as pessoas nascem sem conhecimento algum e aprendem tudo através das experiências que passam. Naquela época, o objetivo de Locke não era contestar o conhecimento espiritual, mas trazer uma perspectiva diferente para o inatismo de Descartes.
[5] Rudolf foi um educador e filósofo austríaco do final do século XIX e início do século XX. Publicou cerca de 350 livros, fundou um tipo de pedagogia, denominada Waldorf, na qual a criança é vista como um ser espiritual, e, portanto, toda a prática educativa é baseada em uma ética profundamente embasa nos princípios universais do amor e da fraternidade. A arte, em sua abordagem pedagógica, é considerada muito importante. Para conhecer melhor uma das iniciativas de Rudolf, basta acessar o site do instituto fundado por ele: https://goetheanum.ch/en
[6] Pestalozzi foi um grande educador suíço. É considerado um dos pais da pedagogia moderna, realizou uma grande obra educacional no contexto de uma suíça invadida pela França.
[7] Esse documento citado foi publicado pela Federação Espírita Brasileira (FEB), no ano de 2015, um intitulado “Orientação à Ação Evangelizadora Espírita da Infância: Subsídios e Diretrizes”. Essa publicação também pode auxiliar aqueles que desejam compreender como se pode realizar essa iniciativa - nos centros em que trabalhem - em etapas simples.
[8] Trecho retirado do livro Horizontes da Mente (Maia, s/d, p. 75).
[9] Site origem da palavra. Disponível em: https://origemdapalavra.com.br/artigo/palestras-etc/#:~:text=Na%20Gr%C3%A9cia%20antiga%2C%20esse%20era,masculino%20(menina%20n%C3%A3o%20entrava).
[10] Trecho extraído do livro “Os prazeres da alma” (2003, p. 14).
[11] Quando falamos na Grande Luz, é pertinente dizer ao amigo leitor que estamos nos referindo à conjunção de estruturas, seres, formas, reinos, dimensões, realidades e energias que compõem o conhecimento e a prática das inteligências celestiais e cósmicas voltadas para a Luz, o Amor e Sabedoria. O maior representante dela, em nosso mundo, foi o Mestre Jesus, o Senhor da Luz.
[12] Médium e trabalhador incansável, cerca de 10.000 cartas consoladoras a familiares e amigos que sofriam pela passagem dos seus para o outro lado da vida, fora as centenas de livros psicografados. Rotina de muitas horas por dia, dedicadas a divulgação e prática da caridade pelo consolo aos aflitos do caminho.
[13] Célebre espiritualista, utilizava seus conhecimentos em medicina espiritual e esoterismo para curar gratuitamente as pessoas que lhe procuravam. Aliviava muitas dores e angústias dos torturados do caminho.
[14] Agnes Gonxha Bojaxhiu nasceu, segundo (Trocado, 2019), no dia 26 de Agosto de 1910 em Skopje, pequena cidade nos Balcãs, então disputada entre a Albânia, o mundo islâmico e o eslavo. Foi uma grande missionária da Luz, ajudando pessoas, quando ainda era uma noviça da igreja, em várias regiões da Índia, principalmente em Calcutá.
[15] Aqui nos referimos ao Buda Shakyamuni, isto é, aquele que, antes, foi o príncipe Sidarta Gautama, que se desapegou de todo o conforto que a sua posição social lhe facilitara para mostrar um caminho até a iluminação espiritual.
[16] Evangelho de Mateus (7:16) Dias (2016, p. 60)
[17] Dias (2016, p. 52-53).
[18] Templo energético de tratamento e instrução espiritual, erguido no astral da cidade de Aparecida - SP, composto pelo magnetismo dos irmãos Francisco Xavier e Emmanuel e mantido por muitos outros cooperadores do bem.
[19] Trecho extraído do livro “O poder do pensamento” (2021, p. 11).
[20] Uma busca para alcançar a verdadeira filosofia, a qual também poderá conduzir o ser humano até a matriz de todos os conhecimentos. Muitas vezes, o Mestre Jesus, se referiu a essa matrona como os “mistérios do reino dos céus” (Mateus 13:11). Dias (2016, p. 86).
[21] Aqui estamos nos referindo a um estágio inicial da verdadeira sabedoria, deixando claro que a escala é infinita.
[22] Aqui fazemos referência ao diálogo do Mestre com a mulher samaritana, como consta no evangelho de João (4: 4-42). Dias (2016, p. 404-405).
[23] Muhammad b. ‘Alî b. Muhammad b. al- ‘Arabî al-Tâ’ î al-Hâtimî, é respeitado e considerado no movimento muçulmano como um grande profeta, tanto por xiitas quanto por sunitas. Em algumas de suas publicações, que foram mais de 700, relata encontros com o Mestre Jesus, descrevendo que ele o ensinou o caminho da retidão. Ibn Arabi nasceu em Múrcia, no sudeste da Espanha, durante o último florescimento de al-Andalus.
[24] (Maia, 2004, p. 151). Esse trecho se refere a um momento de contemplação coletiva que aconteceu com João Nunes Maia em projeção astral. Ele e outros amigos, sob a orientação de Miramez, estavam realizando uma tarefa de ajuda a uma pessoa, e quando perceberam, o clima já estava tenso e precisaram fazer uma prece. Quando a oração terminou, ouve uma contemplação geral no ambiente, extasiando o medianeiro com a visão que estava tendo. O curioso é que, de forma muito natural e tentando evitar algum exagero, o instrutor o convida: - vamos trabalhar?
[25]Ao resgatar o "pensamento mágico", não nos referimos à fantasia ilusória, mas à capacidade de perceber a magia real das leis divinas operando por trás do véu da matéria.
Referências:
BESANT, Annie. O poder do pensamento. Tradução: Augusto Cezar Maia Hegouet - Brasília: Editora Teosófica, 2021.
CONSELHO FEDERATIVO NACIONAL – ÁREA DE INFÂNCIA E JUVENTUDE Orientação à Ação Evangelizadora Espírita da Infância: Subsídios e Diretrizes…Brasília: FEB, 2015.
DIAS, Haroldo Dutra. O Novo Testamento. 1° ed. Brasília: FEB, 2016.
JONES, Aurelia Louise. Telos: Livro Três - Protocolos da Quinta Dimensão. Tradução de Almenara Editorial. 1 ed. Curitiba: Almenara Editorial, 2019.
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo: com explicações das máximas morais do Cristo em concordância com o Espiritismo e suas aplicações às diversas circunstâncias da vida. [Tradução de Evandro Noleto Bezerra da 3 ed. francesa, revista, corrigida e modificada pelo autor em 1866]. - 2 ed. Brasília: FEB, 2014.
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos: filosofia espiritualista / recebidos e coordenados por Allan Kardec; [tradução de Guillon Ribeiro]. – 93. ed. – 8. imp. (Edição Histórica) – Brasília: FEB, 2019.
PEREIRA FRANCO, Divaldo; Neves, João; Calazans, Nilo; Ferraz, José. Atendimento Fraterno (Portuguese Edition) (p. 10). Livraria Espírita Alvorada Editora. Edição do Kindle. 2017.
MAIA, João Nunes. Iniciação: viagem astral. 12³ ed. Belo Horizonte: Editora Fonte Viva: 2004. Disponível em: https://docs.google.com/file/d/0B9CFzVtKHMeYWnNtaDJKY1pSLVk/edit?resourcekey=0-rffc_zfCXNTfjUp5WcqeZw. Acesso em 15 jan 2025.
MAIA, João Nunes (médium); MIRAMEZ (espírito). Francisco de Assis. 27. ed. Belo Horizonte: Fonte Viva, 2002.
MAIA, João Nunes. Horizontes da Mente. Belo Horizonte: Editora Espírita Cristã Fonte Viva. [s.d] Disponível em: https://larbomrepouso.com.br/wp-content/uploads/2020/04/JOAO-NUNES-MAIA-HORIZONTES-DA-MENTE.pdf. Acesso em 15 jan 2025.
NETO, Francisco do Espírito Santo. Os prazeres da alma. Pelo espírito Hammed. Catanduva - SP: Boa Nova Editora, 2003.
PINHEIRO, Luiz Gonzaga. Desobsessão – A terapia dos imortais. 2ª ed. Capivari-SP: Editora EME, 2007.
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