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Tupinambá: Curandeiro das Serpentes


O CANTO DO CABOCLO TUPINAMBÁ: Entre os Oráculos de Oxóssi, os Mistérios da Umbanda e a Memória Indígena


Caboclo Tupinambá.                                                                                                                                                        Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Caboclo Tupinambá. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

Introdução — O sopro antigo


Numa era antes do tempo em que as cidades levantaram concreto sobre a mata; numa era onde o tempo em que o mar nunca se cansava de contar segredos à linha da costa. Dali, nasciam cantos e deuses que atravessariam tempestades, navios e escritas estrangeiras, entranhando-se nas raízes do Brasil.


O Caboclo Tupinambá é figura híbrida, de força e intensidade de espírito aberto para o mato e a cidade, corpo feito de rio e vento serpenteando com a sabedoria ancestral que emerge nessa narrativa como símbolo vivo do encontro entre tradições indígenas, saberes africanos e as práticas esotéricas que viriam mais tarde a se articular na umbanda e em muitos terreiros de candomblé.


Este texto traça, em linguagem épica, uma travessia histórica. A travessia de Tupinambá advindo dos povos tupinambás e sua memória material e ritual; passando pelas matrizes africanas reconfiguradas no candomblé; até as sínteses mediúnicas e sincréticas da umbanda — sempre tendo o Caboclo Tupinambá como eixo narrativo e espiritual. Priorizamos obras-chave e estudos clássicos que ressaltam a força da sabedoria que reaviva essas memórias.


1. Os Tupinambás — vento, pena e capa de plumas


Representação de um Cacique Tupinambá. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Representação de um Cacique Tupinambá. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

Os Tupinambás são um conjunto de povos Tupi-Guarani que, antes e durante o contato europeu, ocuparam extensas áreas do litoral atlântico brasileiro.


Fontes etno-históricas dos séculos XVI e XVII — incluindo relatos de viajantes europeus e estudos arqueológicos modernos — descrevem trajetórias de migração, sociedades agrícolas complexas, rituais coletivos, cosmologias animistas e práticas que impressionaram e muitas vezes foram mal interpretadas pelos primeiros cronistas.


A memória material desses povos aparece em objetos sagrados — como capas de plumas — cujo retorno recente à comunidade tupinambá ilustra a persistência e a atualidade de suas tradições.


Nos relatos de Hans Staden (século XVI) e nas análises posteriores, encontramos descrições que, além de espetaculares para o olhar europeu, falam de sociedades com códigos honoríficos, ritos de passagem e cosmologias onde o humano se confunde com o mundo mais-que-humano. Esses traços informam muito do que hoje é recuperado nas figuras caboclas: espíritos que personificam a floresta, a caça, as águas e a memória dos antigos.


2. Candomblé — as frentes de um oceano espiritual


Representação de uma reunião de tribo de matriz africana.                                                 Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Representação de uma reunião de tribo de matriz africana. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

Do outro lado dessa confluência está a tradição africana transplantada: as religiões de matriz africana que se consolidaram no Brasil sob o nome de candomblé.


A partir do tráfico transatlântico de escravizados, tradições Yorùbá, Fon-ewe, Bantu e outras se articularam no Brasil em práticas de culto aos orixás, nos rituais de incorporação e numa farmacopeia ritual (as folhas sagradas, os axés das ervas).


Estudos sociológicos e etnográficos clássicos de Roger Bastide e das etnografias de Pierre Verger — somados a pesquisas recentes sobre a formação histórica do candomblé — mostram como essas práticas foram ao mesmo tempo mantidas, reinventadas e adaptadas num contexto colonial e pós-colonial.


Representação de um ritual de tribo de matriz africana.                                                    Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Representação de um ritual de tribo de matriz africana. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

No terreiro, Oxóssi (orixá da caça e da mata) e outras entidades ocupam lugar central.


As conexões simbólicas entre a figura do caçador, a mata e o Caboclo (como arquétipo) ficam nítidas: ambos representam conhecimento da floresta, destreza e laços com o invisível.


O candomblé, com sua ênfase na liturgia, canto e dança, foi também espaço de resistência — preservando genealogias espirituais que o Estado e as instituições oficiais frequentemente tentaram suprimir.



3. Umbanda — a mediação sincrética e os caboclos


Grão-Mestre Thamataê foi Rei-Sacerdote na Magnífica Cidade Branca de Ibez, hoje região do Roncador, no Mato Grosso do Sul. A história mais completa pode ser lida no livro Baratzil - A Terra das Estrelas, do médium e autor Roger Feraudy.                                           Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Grão-Mestre Thamataê foi Rei-Sacerdote na Magnífica Cidade Branca de Ibez, hoje região do Roncador, no Mato Grosso do Sul. A história mais completa pode ser lida no livro Baratzil - A Terra das Estrelas, do médium e autor Roger Feraudy. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

Já a umbanda, religião nascida no início do século XX, no Brasil urbano, em Niterói, cidade do Estado do Rio de Janeiro, começou por intermédio da orientação e ensinamentos do Grão-Mestre Thamataê, ao se apresentar como o Caboclo das Sete Encruzilhadas, ao médium e fundador da Umbanda, Zélio Fernandino de Moraes.


A Umbanda surge como um campo de intensa sincretização: mistura de espiritismo kardecista, crenças africanas, catolicismo popular e influências indígenas e ameríndias.


A umbanda inventa e populariza figuras mediúnicas que dialogam diretamente com o imaginário nacional:


  • Os Pretos-velhos, como vovôs e vovós de grandes conhecimentos e sabedorias, muitas vezes com arquétipos de ex-escravos do período colonial brasileiro;


  • As Crianças, Erês e ainda Curumins, e;


  • Os Caboclos e a Caboclas, representantes originários das matas.


Obras contemporâneas sobre umbanda analisam seu processo fundacional, seu caráter popular e as formas mediúnicas que tornam visível ancestralidade indígena no cotidiano das práticas espirituais urbanas.


Na umbanda é a encarnação de um ancestral indígena que traz a cura, mensagens de orientação e memória vida do espírito ou karmas do passado.                                                           Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Na umbanda é a encarnação de um ancestral indígena que traz a cura, mensagens de orientação e memória vida do espírito ou karmas do passado. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

O Caboclo Tupinambá, na umbanda, é então encarnação de um ancestral indígena que traz a cura pelas ervas e tradições de tratamentos das matas.


Ele orienta os espíritos encarnados e desencarnados perdidos nas esteiras da loucura do mundo pelos alertas e pelo reviver das memórias do espírito ou karmas do passado.


A sua fala é direta, sua força vem tanto do conhecimento das ervas quanto da sabedoria de quem viveu entre florestas e marés.


Na liturgia umbandista, ele se apresenta como ponte entre o urbano e o antigo, como guardião das matas interiores da cidade moderna.


4. Origens e fundamentos


É pelos caminhos da mata fechada que pisamos firme nas folhagens e sentimos a energia da terra fluir.                             Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
É pelos caminhos da mata fechada que pisamos firme nas folhagens e sentimos a energia da terra fluir. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

A história do Caboclo Tupinambá não é apenas um fragmento de tradição; é um elo vivo entre o passado indígena e o presente espiritual brasileiro.


Seu nome evoca a dignidade de um povo que, apesar do sofrimento imposto pela colonização, nunca deixou de guardar a memória da mata e da maré.


Nos terreiros, o simples soar de seu nome desperta respeito, como se o vento da floresta atravessasse as paredes de concreto das cidades.


O caboclo é também símbolo da mestiçagem espiritual. Ele representa a fusão entre os mundos: o indígena, o africano e o europeu.


Nessa fusão, não há submissão, mas criação — um novo modo de ser que reflete a própria identidade do Brasil. O nome Tupinambá, então, ultrapassa o sentido histórico e torna-se arquétipo universal de resistência e ancestralidade.



Dimensão comunitária espiritual de Tupinambá dos Caboclos.                          Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Dimensão comunitária espiritual de Tupinambá dos Caboclos. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

Seu papel como chefe de tribo nos rituais da umbanda traduz liderança espiritual. Não comanda pela imposição da força, mas pela capacidade de ouvir e de unir.


Em giras, muitos médiuns relatam sentir como se uma aldeia invisível se erguendo ao redor, composta de guerreiros e curandeiros que vêm auxiliar o trabalho. Essa sensação coletiva reforça a dimensão comunitária do caboclo.


Além disso, a entidade reflete um modelo pedagógico de espiritualidade: ensinar por meio do exemplo, do humor e da simplicidade. Diferente de discursos herméticos, Tupinambá fala de forma direta, acessível, sem perder a profundidade. Essa característica o torna querido entre consulentes que buscam respostas práticas para problemas cotidianos.


4.1. A experiência na floresta — a iniciação pelas serpentes


Entre a vida e a morte.                                          Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Entre a vida e a morte. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

A cena de Tupinambá abandonado na mata é um dos núcleos mais potentes da sua lenda. Ali, entre vida e morte, ele experimenta a solidão mais radical. Desprovido de armas, sem apoio da tribo, sua sobrevivência depende inteiramente do pacto com a natureza. É nesse vazio que a serpente aparece, não como inimiga, mas como aliada.


A serpente, em muitas tradições, é figura de ambivalência: pode matar com seu veneno, mas também curar com seu antídoto. Ao acolher Tupinambá, ela o inicia no mistério dessa dualidade. Ele aprende que toda força contém seu oposto, e que a verdadeira sabedoria está em equilibrar destruição e regeneração. Assim, torna-se mestre na arte de curar sem negar a dor.


Tupinambá se alfabetiza nesse idioma secreto, lendo o mundo natural como escritura divina.                                            Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Tupinambá se alfabetiza nesse idioma secreto, lendo o mundo natural como escritura divina. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

Cada folha que a serpente lhe mostra, cada raiz revelada, é parte de um livro invisível escrito pela floresta.


Tupinambá se alfabetiza nesse idioma secreto, lendo o mundo natural como escritura divina.


Essa leitura das ervas, ainda hoje praticada por caboclos e rezadores, é transmitida nos banhos, defumações e remédios oferecidos nos terreiros.


Por fim, a serpente simboliza também a energia kundalini, conhecida em tradições orientais como a força vital que ascende pela espinha. É possível que esse paralelo seja percebido pelos médiuns que descrevem a energia de Tupinambá como vibrante, quente e enroscada no corpo. Assim, a experiência na floresta marca sua transfiguração em entidade de poder vital.


4.2. O Simbolismo das Serpentes


As Serpentes e transformação de conhecimentos e curas em Tupinambá.                             Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
As Serpentes e transformação de conhecimentos e curas em Tupinambá. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

As serpentes ocupam um papel central na trajetória mítica do Caboclo Tupinambá, pois são elas que lhe transmitem a chave da sobrevivência e do conhecimento.


Na cosmovisão de muitos povos indígenas brasileiros, a serpente é tanto um animal de poder quanto um espírito guardião da floresta.


Sua presença, como vimos no item anterior, não representa apenas o perigo do veneno, mas também a possibilidade da cura, já que o mesmo princípio que mata pode salvar.


Assim, o aprendizado de Tupinambá com a serpente simboliza a passagem iniciática entre a fragilidade humana e a força da sabedoria ancestral.


Sabedoria do Poder das Ervas e das Plantas, da Ciência da Observação, do Silêncio e da Paciência.                           Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Sabedoria do Poder das Ervas e das Plantas, da Ciência da Observação, do Silêncio e da Paciência. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

No universo simbólico das religiões afro-brasileiras e da Umbanda, a serpente aparece associada à energia telúrica, à sabedoria oculta e à força vital que percorre o corpo e a natureza.


Quando Tupinambá aprende com a serpente, ele não apenas descobre o poder das ervas e das plantas, mas também a ciência da observação, do silêncio e da paciência.


A serpente, que se arrasta rente ao solo, representa a ligação direta com a terra, a fonte inesgotável de segredos de cura e equilíbrio espiritual.




A introspecção do homem-serpente, um mediador entre o veneno e o remédio, entre a destruição e a renovação.                      Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
A introspecção do homem-serpente, um mediador entre o veneno e o remédio, entre a destruição e a renovação. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

O ato de renascer após a picada, protegido e instruído pela serpente, reforça ainda mais a dimensão simbólica desse animal como arquétipo de transformação. A troca de pele, um dos fenômenos mais marcantes do ciclo da serpente, traduz a ideia de morte e renascimento, de deixar para trás a fragilidade para assumir a força de um curandeiro e guerreiro espiritual.


Tupinambá, nesse sentido, carrega em si a marca desse processo, tornando-se um homem-serpente, um mediador entre o veneno e o remédio, entre a destruição e a renovação.


Além disso, o encontro com a serpente o insere numa tradição universal em que esse animal é guardião de portais de sabedoria. Em diferentes culturas, a serpente é vista como mestra da cura, protetora dos mistérios e símbolo da energia vital que circula no mundo.


Para o Caboclo Tupinambá, esse encontro se transforma em pacto de eternidade: sua missão nos terreiros e nas matas é perpetuar o dom recebido, ensinando que até do perigo pode nascer a vida, e que a cura verdadeira brota do diálogo profundo entre homem e natureza.


5. Renascimento e sabedoria na destruição


Destruição e dor profunda.                            Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Destruição e dor profunda. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

Ao regressar à aldeia e encontrar apenas cinzas, Tupinambá enfrenta o limite da dor humana. O massacre de sua tribo não é apenas tragédia pessoal, mas também coletiva, refletindo o destino de muitos povos indígenas do Brasil. Diante desse cenário, qualquer outro homem sucumbiria ao desespero. Mas Tupinambá transforma a perda em ponto de renascimento.


Ele compreende que a floresta, mesmo diante da devastação, tem sempre a capacidade de brotar novamente. Da terra queimada nasce o verde; da árvore caída surge o broto.


Essa percepção se torna fundamento da sua filosofia espiritual: o ciclo da vida é maior que a destruição. Essa visão é transmitida até hoje, quando o caboclo ensina resiliência aos seus consulentes.

O Ciclo da Vida é maior que a destruição.          Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
O Ciclo da Vida é maior que a destruição. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

Isolado, Tupinambá passa a dialogar com os elementos. Cada som da mata se torna mensagem: o coaxar dos sapos anuncia chuva, o canto das aves revela perigos, o silêncio profundo indica presença espiritual.


Assim, ele cria um sistema de comunicação que integra homem e cosmos, inaugurando um modo de ser que é tanto sobrevivência quanto iniciação mística.


Esse renascimento espiritual também se reflete na sua missão futura. Ao invés de retornar para a vingança, ele retorna para guiar. Sua liderança nasce do trauma superado, e sua força se ergue não da espada, mas da sabedoria adquirida na comunhão com a natureza. É essa qualidade que o torna caboclo, entidade de cura e paz.


6. A atuação no terreiro — humor, cura e apaziguamento


Presença intensa, mas ao mesmo tempo acolhedora.                                                   Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Presença intensa, mas ao mesmo tempo acolhedora. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

Quando se manifesta nos terreiros, Tupinambá traz consigo a energia vibrante de um guerreiro que não perdeu a ternura.


Sua presença é descrita como intensa, mas ao mesmo tempo acolhedora, como se o peso da floresta pousasse sobre o ambiente para restaurar o equilíbrio. Essa força imediata já prepara o campo espiritual para a cura.


Em seus atendimentos, Tupinambá utiliza não apenas palavras, mas gestos e rituais. Recomenda banhos com ervas específicas, indica rezas antigas e orienta o uso de defumações. Cada receita carrega o eco de sua aprendizagem com a serpente, e cada orientação busca não apenas aliviar sintomas, mas também curar as raízes invisíveis do sofrimento.


O Humor abre novos campos e renova as energias dos tratamentos e ambientes de trabalho espiritual.                                 Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
O Humor abre novos campos e renova as energias dos tratamentos e ambientes de trabalho espiritual. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

Apesar da seriedade do trabalho, Tupinambá é conhecido por seu humor. Muitas vezes faz piadas ou provoca risadas no terreiro e nos centros, quebrando a rigidez dos médiuns diante de difíceis trabalhos no bem.


Esse humor não é banalidade: é estratégia espiritual. O riso, como dizia Victor Hugo, “é o sol que afugenta o inverno do rosto humano”, e nas mãos do caboclo torna-se remédio.


Outro aspecto marcante é sua função de apaziguador. Ele atua desfazendo demandas espirituais, neutralizando energias de conflito e trazendo reconciliação entre pessoas em desavença. Sua autoridade de chefe e guerreiro garante que seu chamado à paz seja respeitado. Assim, nos terreiros, Tupinambá não apenas cura corpos e almas, mas também restaura vínculos sociais.


7. O mito como memória coletiva


Tornou-se, juntamente, com Tupyara, Cobra Coral, Caboclo Sete Flechas e vários outros numa memória viva de nossa ancestralidade.                                             Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Tornou-se, juntamente, com Tupyara, Cobra Coral, Caboclo Sete Flechas e vários outros numa memória viva de nossa ancestralidade. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

Caboclo Tupinambá não pertence a um indivíduo, mas a uma coletividade.


Cada detalhe de sua trajetória — da iniciação com a serpente ao massacre da aldeia — simboliza experiências vividas por inúmeros povos indígenas.


Tupinambá, na Umbanda, principalmente, mas também nos cultos e centros de Tratamentos Espirituais, tornou-se uma memória viva de nossa ancestralidade, uma memória coletiva que poderia ser esquecida pelo silêncio histórico, mas que hoje se fortalece pela Espiritualidade em cada um de nós que participamos e vivenciamos esses conhecimentos ancestrais.


Essa memória não é apenas nostalgia, mas força política e espiritual. Ela afirma que os povos indígenas não desapareceram; estão presentes, reconfigurados, atuando como guias na vida contemporânea.


Ao dar passividade para Tupinambá e sua falange, médiuns trazem para o presente a voz de uma ancestralidade que se recusa a ser apagada.


Símbolo de integração que une mundos separados: natureza e cidade.                                                   Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Símbolo de integração que une mundos separados: natureza e cidade. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

O mito também ensina uma pedagogia da resistência. Ele mostra que, mesmo após o massacre, há possibilidade de renascimento; mesmo após a dor, há espaço para o riso; mesmo na guerra, há lugar para a paz.


Essa pedagogia não está apenas em livros, mas nas vivências concretas de quem recebe orientação espiritual nos terreiros, centros e casas espirituais.


Finalmente, o Caboclo Tupinambá é símbolo de integração. Ele une mundos separados: natureza e cidade, passado e presente, sofrimento e cura. Seu mito é, portanto, um mapa espiritual que ajuda os brasileiros a se reconhecerem como herdeiros de múltiplas tradições, mas sobretudo como guardiões de uma memória indígena que continua pulsando.


O eco que segue


Representação de Tupinambá das Matas, o Curandeiro das Serpentes.                                                     Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.
Representação de Tupinambá das Matas, o Curandeiro das Serpentes. Imagem do Cantinho dos Anciãos criada por i.a.

O Caboclo Tupinambá permanece — não como principal personagem de um passado seco, mas como presença que respira no presente: nos terreiros, nas aldeias que reencontram seus objetos, nas narrativas literárias e nas práticas curativas urbanas.


Entender sua história é entender o Brasil como campo de encontros e conflitos entre povos e espiritualidades, é reconhecer que as matas e o mar ainda falam através de médiuns e curandeiros, e que os objetos repatriados devolvem às comunidades não apenas matéria, mas dignidade e argumentos para disputar terras e memória.


Okê Arô caboclo Tupinambá


Na mata profunda, sozinho ficou,

O vento sussurra, a serpente o ensinou.

Picada e queda, mas não sucumbiu,

Com olhos da floresta, Tupinambá renasceu.

Aprendeu com folhas, raízes e rios,

Guardião da vida, do corpo e dos espíritos.








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Amor, Luz e Paz Sempre!

Salve a Grande Luz!




Ruan Fernandes

Equipe Cantinho dos Anciãos



Referências:


BASTIDE, Roger. As Religiões africanas do Brasil. Editora Pioneira, 1971.

PARÉS, Luis Nicolau. A formação do candomblé: História e ritual da nação jeje na Bahia. Editora da Unicamp, 2018.

VERGER, Pierre Fatumbi. Obras, fotos e documentações sobre Candomblé e a diáspora iorubá.

ÀJÀGÙNNÀ ,Tilo PLÖger DE. O CANDOMBLÉ SAGRADO: Princípios, Organização, Rituais e Termos do Candomblé brasileiro (IFÁ - CANDOMBLÉ - SANTERIA - ORISHÁ).

VOEKS, Robert A. Sacred Leaves of Candomblé: African Magic, Medicine and Religion in Brazil. University of Texas Press, 2010. estudo sobre a farmacopeia ritual do candomblé.

SIEDLAK, Monique Joiner. Umbanda: The Religion of Brazil. Oshun Publications, LLC, 2023.


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