Tupinambá: Curandeiro das Serpentes
- Ruan Fernandes da Silva

- 24 de nov. de 2025
- 12 min de leitura
O CANTO DO CABOCLO TUPINAMBÁ: Entre os Oráculos de Oxóssi, os Mistérios da Umbanda e a Memória Indígena

Introdução — O sopro antigo
Numa era antes do tempo em que as cidades levantaram concreto sobre a mata; numa era onde o tempo em que o mar nunca se cansava de contar segredos à linha da costa. Dali, nasciam cantos e deuses que atravessariam tempestades, navios e escritas estrangeiras, entranhando-se nas raízes do Brasil.
O Caboclo Tupinambá é figura híbrida, de força e intensidade de espírito aberto para o mato e a cidade, corpo feito de rio e vento serpenteando com a sabedoria ancestral que emerge nessa narrativa como símbolo vivo do encontro entre tradições indígenas, saberes africanos e as práticas esotéricas que viriam mais tarde a se articular na umbanda e em muitos terreiros de candomblé.
Este texto traça, em linguagem épica, uma travessia histórica. A travessia de Tupinambá advindo dos povos tupinambás e sua memória material e ritual; passando pelas matrizes africanas reconfiguradas no candomblé; até as sínteses mediúnicas e sincréticas da umbanda — sempre tendo o Caboclo Tupinambá como eixo narrativo e espiritual. Priorizamos obras-chave e estudos clássicos que ressaltam a força da sabedoria que reaviva essas memórias.
1. Os Tupinambás — vento, pena e capa de plumas

Os Tupinambás são um conjunto de povos Tupi-Guarani que, antes e durante o contato europeu, ocuparam extensas áreas do litoral atlântico brasileiro.
Fontes etno-históricas dos séculos XVI e XVII — incluindo relatos de viajantes europeus e estudos arqueológicos modernos — descrevem trajetórias de migração, sociedades agrícolas complexas, rituais coletivos, cosmologias animistas e práticas que impressionaram e muitas vezes foram mal interpretadas pelos primeiros cronistas.
A memória material desses povos aparece em objetos sagrados — como capas de plumas — cujo retorno recente à comunidade tupinambá ilustra a persistência e a atualidade de suas tradições.
Nos relatos de Hans Staden (século XVI) e nas análises posteriores, encontramos descrições que, além de espetaculares para o olhar europeu, falam de sociedades com códigos honoríficos, ritos de passagem e cosmologias onde o humano se confunde com o mundo mais-que-humano. Esses traços informam muito do que hoje é recuperado nas figuras caboclas: espíritos que personificam a floresta, a caça, as águas e a memória dos antigos.
2. Candomblé — as frentes de um oceano espiritual

Do outro lado dessa confluência está a tradição africana transplantada: as religiões de matriz africana que se consolidaram no Brasil sob o nome de candomblé.
A partir do tráfico transatlântico de escravizados, tradições Yorùbá, Fon-ewe, Bantu e outras se articularam no Brasil em práticas de culto aos orixás, nos rituais de incorporação e numa farmacopeia ritual (as folhas sagradas, os axés das ervas).
Estudos sociológicos e etnográficos clássicos de Roger Bastide e das etnografias de Pierre Verger — somados a pesquisas recentes sobre a formação histórica do candomblé — mostram como essas práticas foram ao mesmo tempo mantidas, reinventadas e adaptadas num contexto colonial e pós-colonial.

No terreiro, Oxóssi (orixá da caça e da mata) e outras entidades ocupam lugar central.
As conexões simbólicas entre a figura do caçador, a mata e o Caboclo (como arquétipo) ficam nítidas: ambos representam conhecimento da floresta, destreza e laços com o invisível.
O candomblé, com sua ênfase na liturgia, canto e dança, foi também espaço de resistência — preservando genealogias espirituais que o Estado e as instituições oficiais frequentemente tentaram suprimir.
3. Umbanda — a mediação sincrética e os caboclos

Já a umbanda, religião nascida no início do século XX, no Brasil urbano, em Niterói, cidade do Estado do Rio de Janeiro, começou por intermédio da orientação e ensinamentos do Grão-Mestre Thamataê, ao se apresentar como o Caboclo das Sete Encruzilhadas, ao médium e fundador da Umbanda, Zélio Fernandino de Moraes.
A Umbanda surge como um campo de intensa sincretização: mistura de espiritismo kardecista, crenças africanas, catolicismo popular e influências indígenas e ameríndias.
A umbanda inventa e populariza figuras mediúnicas que dialogam diretamente com o imaginário nacional:
Os Pretos-velhos, como vovôs e vovós de grandes conhecimentos e sabedorias, muitas vezes com arquétipos de ex-escravos do período colonial brasileiro;
As Crianças, Erês e ainda Curumins, e;
Os Caboclos e a Caboclas, representantes originários das matas.
Obras contemporâneas sobre umbanda analisam seu processo fundacional, seu caráter popular e as formas mediúnicas que tornam visível ancestralidade indígena no cotidiano das práticas espirituais urbanas.

O Caboclo Tupinambá, na umbanda, é então encarnação de um ancestral indígena que traz a cura pelas ervas e tradições de tratamentos das matas.
Ele orienta os espíritos encarnados e desencarnados perdidos nas esteiras da loucura do mundo pelos alertas e pelo reviver das memórias do espírito ou karmas do passado.
A sua fala é direta, sua força vem tanto do conhecimento das ervas quanto da sabedoria de quem viveu entre florestas e marés.
Na liturgia umbandista, ele se apresenta como ponte entre o urbano e o antigo, como guardião das matas interiores da cidade moderna.
4. Origens e fundamentos

A história do Caboclo Tupinambá não é apenas um fragmento de tradição; é um elo vivo entre o passado indígena e o presente espiritual brasileiro.
Seu nome evoca a dignidade de um povo que, apesar do sofrimento imposto pela colonização, nunca deixou de guardar a memória da mata e da maré.
Nos terreiros, o simples soar de seu nome desperta respeito, como se o vento da floresta atravessasse as paredes de concreto das cidades.
O caboclo é também símbolo da mestiçagem espiritual. Ele representa a fusão entre os mundos: o indígena, o africano e o europeu.
Nessa fusão, não há submissão, mas criação — um novo modo de ser que reflete a própria identidade do Brasil. O nome Tupinambá, então, ultrapassa o sentido histórico e torna-se arquétipo universal de resistência e ancestralidade.

Seu papel como chefe de tribo nos rituais da umbanda traduz liderança espiritual. Não comanda pela imposição da força, mas pela capacidade de ouvir e de unir.
Em giras, muitos médiuns relatam sentir como se uma aldeia invisível se erguendo ao redor, composta de guerreiros e curandeiros que vêm auxiliar o trabalho. Essa sensação coletiva reforça a dimensão comunitária do caboclo.
Além disso, a entidade reflete um modelo pedagógico de espiritualidade: ensinar por meio do exemplo, do humor e da simplicidade. Diferente de discursos herméticos, Tupinambá fala de forma direta, acessível, sem perder a profundidade. Essa característica o torna querido entre consulentes que buscam respostas práticas para problemas cotidianos.
4.1. A experiência na floresta — a iniciação pelas serpentes

A cena de Tupinambá abandonado na mata é um dos núcleos mais potentes da sua lenda. Ali, entre vida e morte, ele experimenta a solidão mais radical. Desprovido de armas, sem apoio da tribo, sua sobrevivência depende inteiramente do pacto com a natureza. É nesse vazio que a serpente aparece, não como inimiga, mas como aliada.
A serpente, em muitas tradições, é figura de ambivalência: pode matar com seu veneno, mas também curar com seu antídoto. Ao acolher Tupinambá, ela o inicia no mistério dessa dualidade. Ele aprende que toda força contém seu oposto, e que a verdadeira sabedoria está em equilibrar destruição e regeneração. Assim, torna-se mestre na arte de curar sem negar a dor.

Cada folha que a serpente lhe mostra, cada raiz revelada, é parte de um livro invisível escrito pela floresta.
Tupinambá se alfabetiza nesse idioma secreto, lendo o mundo natural como escritura divina.
Essa leitura das ervas, ainda hoje praticada por caboclos e rezadores, é transmitida nos banhos, defumações e remédios oferecidos nos terreiros.
Por fim, a serpente simboliza também a energia kundalini, conhecida em tradições orientais como a força vital que ascende pela espinha. É possível que esse paralelo seja percebido pelos médiuns que descrevem a energia de Tupinambá como vibrante, quente e enroscada no corpo. Assim, a experiência na floresta marca sua transfiguração em entidade de poder vital.
4.2. O Simbolismo das Serpentes

As serpentes ocupam um papel central na trajetória mítica do Caboclo Tupinambá, pois são elas que lhe transmitem a chave da sobrevivência e do conhecimento.
Na cosmovisão de muitos povos indígenas brasileiros, a serpente é tanto um animal de poder quanto um espírito guardião da floresta.
Sua presença, como vimos no item anterior, não representa apenas o perigo do veneno, mas também a possibilidade da cura, já que o mesmo princípio que mata pode salvar.
Assim, o aprendizado de Tupinambá com a serpente simboliza a passagem iniciática entre a fragilidade humana e a força da sabedoria ancestral.

No universo simbólico das religiões afro-brasileiras e da Umbanda, a serpente aparece associada à energia telúrica, à sabedoria oculta e à força vital que percorre o corpo e a natureza.
Quando Tupinambá aprende com a serpente, ele não apenas descobre o poder das ervas e das plantas, mas também a ciência da observação, do silêncio e da paciência.
A serpente, que se arrasta rente ao solo, representa a ligação direta com a terra, a fonte inesgotável de segredos de cura e equilíbrio espiritual.

O ato de renascer após a picada, protegido e instruído pela serpente, reforça ainda mais a dimensão simbólica desse animal como arquétipo de transformação. A troca de pele, um dos fenômenos mais marcantes do ciclo da serpente, traduz a ideia de morte e renascimento, de deixar para trás a fragilidade para assumir a força de um curandeiro e guerreiro espiritual.
Tupinambá, nesse sentido, carrega em si a marca desse processo, tornando-se um homem-serpente, um mediador entre o veneno e o remédio, entre a destruição e a renovação.
Além disso, o encontro com a serpente o insere numa tradição universal em que esse animal é guardião de portais de sabedoria. Em diferentes culturas, a serpente é vista como mestra da cura, protetora dos mistérios e símbolo da energia vital que circula no mundo.
Para o Caboclo Tupinambá, esse encontro se transforma em pacto de eternidade: sua missão nos terreiros e nas matas é perpetuar o dom recebido, ensinando que até do perigo pode nascer a vida, e que a cura verdadeira brota do diálogo profundo entre homem e natureza.
5. Renascimento e sabedoria na destruição

Ao regressar à aldeia e encontrar apenas cinzas, Tupinambá enfrenta o limite da dor humana. O massacre de sua tribo não é apenas tragédia pessoal, mas também coletiva, refletindo o destino de muitos povos indígenas do Brasil. Diante desse cenário, qualquer outro homem sucumbiria ao desespero. Mas Tupinambá transforma a perda em ponto de renascimento.
Ele compreende que a floresta, mesmo diante da devastação, tem sempre a capacidade de brotar novamente. Da terra queimada nasce o verde; da árvore caída surge o broto.
Essa percepção se torna fundamento da sua filosofia espiritual: o ciclo da vida é maior que a destruição. Essa visão é transmitida até hoje, quando o caboclo ensina resiliência aos seus consulentes.

Isolado, Tupinambá passa a dialogar com os elementos. Cada som da mata se torna mensagem: o coaxar dos sapos anuncia chuva, o canto das aves revela perigos, o silêncio profundo indica presença espiritual.
Assim, ele cria um sistema de comunicação que integra homem e cosmos, inaugurando um modo de ser que é tanto sobrevivência quanto iniciação mística.
Esse renascimento espiritual também se reflete na sua missão futura. Ao invés de retornar para a vingança, ele retorna para guiar. Sua liderança nasce do trauma superado, e sua força se ergue não da espada, mas da sabedoria adquirida na comunhão com a natureza. É essa qualidade que o torna caboclo, entidade de cura e paz.
6. A atuação no terreiro — humor, cura e apaziguamento

Quando se manifesta nos terreiros, Tupinambá traz consigo a energia vibrante de um guerreiro que não perdeu a ternura.
Sua presença é descrita como intensa, mas ao mesmo tempo acolhedora, como se o peso da floresta pousasse sobre o ambiente para restaurar o equilíbrio. Essa força imediata já prepara o campo espiritual para a cura.
Em seus atendimentos, Tupinambá utiliza não apenas palavras, mas gestos e rituais. Recomenda banhos com ervas específicas, indica rezas antigas e orienta o uso de defumações. Cada receita carrega o eco de sua aprendizagem com a serpente, e cada orientação busca não apenas aliviar sintomas, mas também curar as raízes invisíveis do sofrimento.

Apesar da seriedade do trabalho, Tupinambá é conhecido por seu humor. Muitas vezes faz piadas ou provoca risadas no terreiro e nos centros, quebrando a rigidez dos médiuns diante de difíceis trabalhos no bem.
Esse humor não é banalidade: é estratégia espiritual. O riso, como dizia Victor Hugo, “é o sol que afugenta o inverno do rosto humano”, e nas mãos do caboclo torna-se remédio.
Outro aspecto marcante é sua função de apaziguador. Ele atua desfazendo demandas espirituais, neutralizando energias de conflito e trazendo reconciliação entre pessoas em desavença. Sua autoridade de chefe e guerreiro garante que seu chamado à paz seja respeitado. Assim, nos terreiros, Tupinambá não apenas cura corpos e almas, mas também restaura vínculos sociais.
7. O mito como memória coletiva

Caboclo Tupinambá não pertence a um indivíduo, mas a uma coletividade.
Cada detalhe de sua trajetória — da iniciação com a serpente ao massacre da aldeia — simboliza experiências vividas por inúmeros povos indígenas.
Tupinambá, na Umbanda, principalmente, mas também nos cultos e centros de Tratamentos Espirituais, tornou-se uma memória viva de nossa ancestralidade, uma memória coletiva que poderia ser esquecida pelo silêncio histórico, mas que hoje se fortalece pela Espiritualidade em cada um de nós que participamos e vivenciamos esses conhecimentos ancestrais.
Essa memória não é apenas nostalgia, mas força política e espiritual. Ela afirma que os povos indígenas não desapareceram; estão presentes, reconfigurados, atuando como guias na vida contemporânea.
Ao dar passividade para Tupinambá e sua falange, médiuns trazem para o presente a voz de uma ancestralidade que se recusa a ser apagada.

O mito também ensina uma pedagogia da resistência. Ele mostra que, mesmo após o massacre, há possibilidade de renascimento; mesmo após a dor, há espaço para o riso; mesmo na guerra, há lugar para a paz.
Essa pedagogia não está apenas em livros, mas nas vivências concretas de quem recebe orientação espiritual nos terreiros, centros e casas espirituais.
Finalmente, o Caboclo Tupinambá é símbolo de integração. Ele une mundos separados: natureza e cidade, passado e presente, sofrimento e cura. Seu mito é, portanto, um mapa espiritual que ajuda os brasileiros a se reconhecerem como herdeiros de múltiplas tradições, mas sobretudo como guardiões de uma memória indígena que continua pulsando.
O eco que segue

O Caboclo Tupinambá permanece — não como principal personagem de um passado seco, mas como presença que respira no presente: nos terreiros, nas aldeias que reencontram seus objetos, nas narrativas literárias e nas práticas curativas urbanas.
Entender sua história é entender o Brasil como campo de encontros e conflitos entre povos e espiritualidades, é reconhecer que as matas e o mar ainda falam através de médiuns e curandeiros, e que os objetos repatriados devolvem às comunidades não apenas matéria, mas dignidade e argumentos para disputar terras e memória.
Okê Arô caboclo Tupinambá
Na mata profunda, sozinho ficou,
O vento sussurra, a serpente o ensinou.
Picada e queda, mas não sucumbiu,
Com olhos da floresta, Tupinambá renasceu.
Aprendeu com folhas, raízes e rios,
Guardião da vida, do corpo e dos espíritos.
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Ruan Fernandes
Equipe Cantinho dos Anciãos
Referências:
BASTIDE, Roger. As Religiões africanas do Brasil. Editora Pioneira, 1971.
PARÉS, Luis Nicolau. A formação do candomblé: História e ritual da nação jeje na Bahia. Editora da Unicamp, 2018.
VERGER, Pierre Fatumbi. Obras, fotos e documentações sobre Candomblé e a diáspora iorubá.
ÀJÀGÙNNÀ ,Tilo PLÖger DE. O CANDOMBLÉ SAGRADO: Princípios, Organização, Rituais e Termos do Candomblé brasileiro (IFÁ - CANDOMBLÉ - SANTERIA - ORISHÁ).
VOEKS, Robert A. Sacred Leaves of Candomblé: African Magic, Medicine and Religion in Brazil. University of Texas Press, 2010. estudo sobre a farmacopeia ritual do candomblé.
SIEDLAK, Monique Joiner. Umbanda: The Religion of Brazil. Oshun Publications, LLC, 2023.




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