Onde o trabalho de um pronto-socorro espiritual começa
- Raul César

- 5 de jan.
- 12 min de leitura
Atualizado: 13 de jan.
Da série inicial de vinte e um artigos:
- Texto 20 -

Qual a verdadeira doutrina do Cristo? Os seus princípios essenciais acham-se claramente enunciados no Evangelho. É a paternidade universal de Deus e a fraternidade dos homens, com as consequências morais que daí resultam.[1]
Léon Denis
Todo projeto que inicia ou retoma suas atividades detém bases que lhe são os pontos erguidos para a boa realização do que se propõe. No caso de nossas atividades, a maior de todas as orientações está no Senhor da Luz. Ele disse, no evangelho de Lucas (21:33): “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (Dutra, 2016, p. 366). Essa imortalidade do Verbo não é apenas poética; é a garantia de que, por mais que a sociedade se modernize, o remédio para a alma humana continua sendo o mesmo prescrito há dois milênios. O ensinamento dele, as vivências, palavras e situações onde educou os homens e mulheres são os eixos fundamentais para a prática do bem e superação do sofrimento.
A ideia neste capítulo é trazermos um pouco, a partir da orientação dos irmãos espirituais, de um modelo de funcionamento básico e harmônico para um templo espiritual que busque o serviço próximo, sobretudo para os que sejam pronto socorros espirituais, porque estes detêm, invariavelmente, o perfil de trabalho mais necessário para os tempos vindouros, pois a grande transformação do futuro, que é pelo amor, já apresentou a sua face mais bonita: a prática da caridade para com todos os esquecidos e desvalidos, sempre considerando os elementos gerais da universalidade e do amor. Afinal, o serviço à sociedade não é um 'apêndice' da casa espírita, mas o seu sistema circulatório: é ele que oxigena o ambiente astral da instituição.
Sete frentes consideramos igualmente importantes para o desenvolvimento do trabalho nas casas espíritas. A começar pela pedra angular, a qual daremos destaque nesse capítulo, sendo as outras seis abordadas de forma conjunta apenas no capítulo 21.
Projetos sociais voluntários: a base material para o mundo de regeneração
³⁴ Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; ³⁵ Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; ³⁶ Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Mateus (25:34-36)[1]
Jesus
Caro amigo leitor, este é um ponto crucial da jornada num Templo da Luz. Poderíamos elencar uma série de reflexões a respeito do que se trata a caridade, mas a verdade é que, após as palavras tão firmes e diretas do Mestre Jesus, fica difícil não entender que ele está pedindo para os que o buscam. Um verdadeiro roteiro, um mapa que leva a um grande tesouro para aqueles que percorrem o caminho da boa conduta são essas palavras ditas por ele no evangelho de Mateus. Um despojamento de si, um exercício constante de modificação interior e exterior, como diriam até mesmo os antigos filósofos estoicos, que pregavam a indiferença às posses em favor do dever moral. Para que sejamos ainda mais claros quanto ao recado dado pelo Príncipe da Paz, acrescentamos aqui a passagem que continua a lição anterior, quando afirma, para não mais deixar dúvidas que, “em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.”[2]
Considerando que no evangelho de Mateus, especificamente no capítulo 25, vemos um Messias assertivo e direto, apontando as glórias do reino em um tempo vindouro, percebemos o quanto foi dada importância ao ensinamento em questão. Tudo isto foi corroborado por todos os grandes instrutores da humanidade até hoje. É uma voz coletiva que nunca se cala e que encontrou em Kardec uma expressão axiomática belíssima com a salvação pela caridade. Ora, essa percepção considera que a alma pode, a partir de suas escolhas enquanto vive na Terra, angariar as virtudes que a salvam do sofrimento no além-vida, só que para isto acontecer, é necessário cultivá-las dentro de si. Como podemos cultivar as virtudes sem praticá-las? Os espíritos se distinguem pelas virtudes, disse ainda o iluminado de Lyon.
Tendo isso em mente, passamos a um entendimento mais real do que se trata essa base citada anteriormente. Afinal, já que tudo deve começar e terminar pela prática desses princípios, é bom que se tenham atividades junto às comunidades que mais precisam: as pessoas em situação de rua[3], as que se encontram em vulnerabilidade social, subnutrição, pelos viciados, pelos detentos, pelas crianças, idosos e enfermos do corpo físico. Todos os que são mais fragilizados devem ser os primeiros a sentarem-se a mesa de nosso senhor, que os convidou desde o princípio para o festim. Se um templo não tiver uma atividade assim, seja um banho solidário, uma sopa no fim de semana, um café da manhã ou alguma recreação com esse público, as outras atividades estarão muito mais fragilizadas espiritualmente. Em uma casa espírita, tudo deve estar na frequência da caridade, como ensinou o Cristo. O trabalho deve começar com aqueles que a maioria das pessoas não querem estar perto, com os esquecidos ou invizibilizados. Essa deve ser a bandeira erguida, após o amor a Deus, o ufanal mais desejado dos espíritas, objeto de busca incessante, interessada e valiosa. O que mais importa é o coração do outro, a sua renovação, sua cura e o cuidado com os que estejam em um sofrimento mais escancaradamente difícil de encarar. A primeira coisa a fazer caminha sempre em direção ao desmascaramento e reparação da realidade dura dos que não tem esperança de um socorro, de uma ajuda.
Quanto mais a indisciplina e a indiferença crescem no mundo, maior a necessidade de se oxigenarem às teorias espiritualistas com a prática genuína do bem. Atualmente existem aproximadamente 27 projetos sociais voltados para a solidariedade juntos às pessoas em situação de rua em nossa capital. Esse número crescente, comparado a cerca de 25 anos atrás, quando somente existia o trabalho do Anjos da Madrugada, (Fernandes, 2022), revela que vários pequenos grupos estão despertando para os ensinamentos do Cristo, estão reconfigurando o que significa uma verdadeira teologia pela prática.
Todo templo, por isso, deve ter projetos sociais voluntários, porque eles são como bastiões mantenedores do serviço com Jesus. Esse trabalho deve ser organizado e pensado por todos os seus participantes. Deve, inclusive, fazer parte de toda a estrutura da casa, ou seja, o espaço deve ser pensado em prol dessa prática, quando o caso for acolher as pessoas dentro do templo e, quando a atividade for externa, algum espaço deve ser destinado, dentro da casa, ao recebimento organização e distribuição dos recursos a serem encaminhados.
A fome, este recado doloroso que relembra a nossa condição de mundo atrasado ante a imensidão de orbes iluminados, é resultado direto da indiferença de todos aqueles que poderiam fazer algo para ajudar, porém, resolvem se manter de braços cruzados, seguindo suas vidas com os objetivos particularistas e quase sempre medianos.
Os prontos socorros espirituais devem ser esse ponto de apoio para os agentes do bem, provendo a estrutura necessária para a manutenção da caridade, seja pelo angariar dos recursos materiais necessários a manutenção dos projetos através de doações, sejam com as campanhas de divulgação das atividades para que outros também possam participar e, quem sabe, até expandir a iniciativa para outras frentes. Todos os espaços da casa podem ser mobilizados para os projetos. As salas, cozinhas, auditórios, tudo é um lugar para serviço no bem.
Cada iniciativa no bem importa. Mesmo que seja somente um café com pão, um abraço ou uma moeda, tudo isto conta para quem passe pelo constrangimento da necessidade material. Incentivadas e valorizadas, estas iniciativas se tornam a base segura para qualquer outra atividade doutrinária ou de esclarecimento no seu sentido mais geral. Um pronto socorro espiritual é um lugar de acolhimento sincero, de abraço incondicional independente da condição em que o outro se encontre.
Nesse sentido, o trabalho deve sempre visar a sua continuidade, de modo que seja o mais simples possível e que não necessite de quantias vultosas para a sua elaboração e manutenção, de forma que uma cota financeira entre os próprios servidores já seja o suficiente para a sua continuidade.
O projeto não precisa ter o nome do centro, uma nomenclatura que seja correlata é de bom tamanho, até para que esse movimento não precise estar atrelado a nenhum processo centralizador. De preferência, o trabalho deve ser pensado como uma assembleia ou um conselho de irmãos, onde não haja um “presidente” do trabalho, mas para que todos possam se sentir igualmente responsáveis pela sua manutenção.
A conexão com a espiritualidade é outro ponto indispensável. Tudo o que for decidido, com relação a eventuais modificações do projeto, pode e deve ser pensado junto aos irmãos espirituais. É claro que não se trata das pequenas coisas do dia a dia que facilmente podem ser decididas entre os encarnados, mas com relação a mudanças que podem afetar o grande grupo, principalmente aquelas que os membros saibam que não são “consensuais” entre todos. Todos devem participar de tudo e em todas as etapas, de forma que tudo seja construído conjuntamente, sem exclusivismos. Quando dizemos isso, temos a pretensão unicamente de evitar que conflitos paralisantes se instalem, sem a menor necessidade, e subtraiam os valiosos recursos oferecidos pelo mestre para que o bem se realize no mundo.
O local, o quantitativo de pessoas, as frentes específicas do que será desenvolvido pelo grupo é bom que seja definido por cada agrupamento, na intenção de perceberem como cada um pode ajudar da melhor forma possível. Não temer a quantidade de projetos também é outro ponto importante, já que não se trata de uma competição, é justo reconhecer que, no serviço do bem, quanto mais iniciativas, melhor. Tudo, desde o princípio, se for feito com simplicidade, humildade e amor uns pelos outros, não resulta em uma fragmentação fruto de desavença, mas pode se ampliar em novos projetos de modo colaborativo e fraternal.
Diante disso, das iniciativas que uma casa do bem pode realizar para começar é o acolhimento às pessoas em situação de rua, mesmo que não seja possível diariamente ou semanalmente, ao menos, duas vezes ao mês. Um bom café da manhã, um almoço reforçado ou uma janta digna é ampliar o alcance do braço bondoso do Mestre até o nosso próximo. Um banho, uma troca de roupas, ou até mesmo cortes de cabelo, assim se aliam forças e se somam às frentes de atuação, enriquecendo o bem com o tempero abençoado da prática.
Atualmente, a Casa dos Espíritos conta com alguns projetos que estão vinculados, através dos voluntários, à instituição. Os projetos Semeadores do Bem, Café do Bem, Medianeiros e Café Fraterno. Todas essas iniciativas dizem respeito à prática da solidariedade e do amor junto as pessoas em situação de rua e outras que estão em situação de subnutrição ou vulnerabilidade social.
No caso do primeiro, detém uma frequência de duas intervenções itinerantes por mês, com um pequeno grupo que se ajunta no endereço de uma das irmãs voluntárias para a produção da refeição que será distribuída. Os ingredientes são organizados e escolhidos para então serem divulgados em um grupo do WhatsApp – a rota de entrega dos alimentos é estabelecida pelos voluntários, que geralmente passam pelo bairro da Ribeira e parte da Cidade Alta. Trata-se de um almoço oferecido aos que se encontram nessa situação. Tudo é feito com muita simplicidade e dedicação. A comida é preparada e organizada em pequenas vasilhas de isopor para serem entregues junto com colheres descartáveis. Todo os insumos são resultados de doações dos próprios voluntários.
Imagem I – preparando a refeição para os irmãos em situação de rua.

O projeto Café do Bem, por sua vez, também trabalha com o mesmo perfil de público, acontecendo com uma frequência de uma vez por mês, geralmente no último domingo do mês sendo também um projeto itinerante. Cada voluntário leva um item em específico, como café, bolo ou pães e, ao final, todos se encontram em um endereço definido previamente pelo próprio grupo – geralmente no bairro do Alecrim para, assim, seguirem as atividades do dia, realizando um itinerário, por vezes pré-fixado, por outras, seguindo a instrução direta dos irmãos espirituais, o que acontece no momento da ação. O trabalho é feito considerando a necessidade observada em alguma região da cidade.
Imagem II – Grupo Café do Bem em sua última ação do ano de 2024

Com relação ao projeto Medianeiros, fundado no ano de 2015 por um grupo de tarefeiros do templo, as atividades acontecem durante o período noturno, onde também é feita a entrega de alimentos e kits de higiene. As atividades possuem a mesma frequência do projeto Café do Bem, acontecendo uma vez por mês, no último sábado de cada mês, fazendo a entrega de pontuais 150 refeições às pessoas, além de água mineral, sucos, refrigerantes ou achocolatados. As entregas, por vezes, acontecem em comunidades específicas que não necessariamente são na capital, mas em comunidades da zona rural de outros municípios que pertençam a região metropolitana da capital. Outras vezes, os recursos são entregues pelas ruas da cidade de Natal. Logo a seguir, registros fotográficos de algumas atividades realizadas por esse grupo no ano de 2024.
Imagem IV – Encontrando um irmão em situação de rua e seu cachorro e finalizando uma ação nas noites das ruas de Natal.

O Grupo Café Fraterno, por sua vez, de modo semelhante aos projetos anteriormente citados, acontece uma vez por mês, com um café da manhã servido as pessoas carentes, de maneira que o grupo é formado, atualmente, por uma menor quantidade de voluntários, sendo o total de 5 pessoas. Este projeto existe desde 13 de dezembro de 2015, quando uma voluntária da casa e seu companheiro, sua mãe e mais dois amigos resolveram começar as entregas de alimentos pelas ruas de Natal. O projeto inicialmente chamava-se “Amigos de Maria”, modificando o nome após um ano de existência, para “Café do Bem”, o projeto citado anteriormente. O grupo, há alguns anos, realizava - para além das entregas regulares de café para as pessoas em situação de rua – anualmente, uma pesquisa de campo que acontecia geralmente no mês de julho, onde eram escolhidas e mapeadas a quantidade de famílias em alguma comunidade carente em municípios como Taipu, Ceará-mirim, Extremoz, para que pudesse acontecer o “Café do bem Kids” que era a distribuição de alimentos e brinquedos para crianças que acontecia no mês de outubro, próximo ao Dia das Crianças. Cachorro quente, algodão doce, picolé, brinquedos, eram entregues e tudo era separado em categorias - como para “meninos” e para “meninas”, faixa etária - e no caso de se ter alguma criança com deficiência, para a entrega de brinquedos adaptados. Tanto as crianças quanto os pais partilhavam desse momento. Instantes de recreação também aconteciam. No ano de 2024, devido ao crescimento do quantitativo do grupo, houve um direcionamento das atividades para zonas diferentes da capital e eventual divisão dos grupos, o que resultou na criação do nome “Café Fraterno”.
Imagem III – Uma voluntária usa a pomada Vovô Pedro no ferimento de uma irmã em situação de rua e a distribuição de ração para os gatos em situação de rua.

Vemos que, assim, uma leve rede de sustentação das energias espirituais acontece. Ao estender as mãos em locais diferentes dentro da cidade — da Ribeira ao Alecrim, das zonas rurais ao coração da Cidade Alta — mantém-se uma dinâmica mensal de tarefas caritativas que funciona como uma verdadeira malha de luz sobre a metrópole. De maneira que, ao menos nesse intervalo, o fluxo energético das atividades voluntárias equilibra o peso das dores coletivas, criando uma pequena região de paz onde o desamparado era quem fazia as constantes visitas.
Afinal, o mundo ao qual tanto torcemos para acontecer – o de regeneração – não chegará por eventos extraordinários nas nuvens, mas configura-se justamente no atual período que estamos vivendo encarnados, através do esforço silencioso. Ele vem à tona com essas pequenas atividades, feitas com dedicação, amorosidade e, acima de tudo, continuidade. Como bem ressaltou o irmão e pesquisador Ruan Fernandes (2022), a continuidade dos projetos sociais voluntários é fundamental, tendo em conta que a necessidade do público atendido é sempre reiterada; a fome e a solidão não esperam.
A caridade, portanto, é sempre o primeiro passo, a pedra angular de ação de um templo de atividades espirituais. Sem ela, o edifício doutrinário é apenas teoria. No “olho no olho”, no “coração a coração” com os irmãos nas ruas, é que encontramos um vislumbre inicial e verdadeiro do que a espiritualidade superior tenta nos ensinar há séculos. É no aperto de mão calejada e no sorriso de quem nada tem que percebemos o valor real do acolhimento. Nas estradas da vida, esses irmãos são nossos maiores professores, pois nos convidam a ser, por alguns instantes, o braço amoroso do Mestre que nunca nos desampara.
Desta forma, terminamos essa breve reflexão sobre esta primeira e fundamental frente de serviço. É importante lembrar que os outros seis pontos que compõem partes que consideramos fundamentais para o trabalho em um Pronto Socorro Espiritual, como o — Acolhimento, Atendimento Fraterno, Desobsessão, Evangelização Infantil, Palestra Pública e os Estudos Espirituais — serão discutidos no item posterior. Ali, faremos algumas considerações gerais sobre a proposição dessas breves palavras, momento em que também encerraremos esta primeira série de artigos - no total de 21 - sobre a Casa dos Espíritos. Que a pedra angular da caridade permaneça como o norte de nossas intenções até lá.
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Raul César
Equipe Cantinho dos Anciãos
Notas:
[1] (Dias, 2016, p. 141).
[2] Mateus 25:40
[3] Pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) aponta que a população em situação de rua supera 281,4 mil pessoas no Brasil, isto é, considerando o ano de 2013 até agosto de 2023, o número aumentou de forma exponencial. Isso sem tratarmos dos números internacionais, que também são alarmantes.
[1] Do livro Cristianismo e Espiritismo, (s/d, p. 40).
Referências:
DENIS, Léon. Cristianismo e Espiritismo: Léon Denis (Clássicos do Espiritismo, Livro 1) (Portuguese Edition) (p. 40). Unknown. Edição do Kindle.
DIAS, Haroldo Dutra. O Novo Testamento. 1° ed. Brasília: FEB, 2016.
SILVA, Ruan Fernandes da. A transformação social pelo amor. São Paulo: Editora Dialética, 2022.




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